segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Escassa vergonha

(Imagem: Pinterest)

Quais vozes de grande alcance falam hoje, no Brasil, o que a sociedade quer escutar?

A resposta é nenhuma. Pobres no conteúdo e tremulantes na gramática, os discursos, além de enfadonhos, provavelmente manterão no caminho entre o desalento e o desespero quem lhes dê atenção.

"O Relator já fez a concessão da aposentadoria aos 55 anos para ser aprovada a reforma – falava-se em 60 anos – e não passou. O Governo não está conduzindo como deveria. O Congresso não está se comportando como deveria".

Estas afirmações – atualíssimas – foram feitas pelo então senador Pedro Simon, em aparte do colega Jefferson Peres, em sessão do Senado realizada em Maio de 1996. Na ocasião, era discutida a reforma da Previdência que, anunciava-se, estava "quebrada". – "Nessa questão, é possível se oferecerem alternativas racionais para a Previdência. Temos que dar condições para que essa Previdência possa funcionar", enfatizava o senador gaúcho.

Refém de anunciado furacão de verdades, logo transformado em tempestade tropical de dúvidas, a sociedade continua vendo de pé torres de marfim, enquanto se debate para não submergir em meio à pulverização de culpas.

Bem próximas da oratória oficial, as entrevistas coletivas, habitualmente reduzidas a pouco mais que um pronunciamento do entrevistado ou a leitura de uma nota oficial, mais expõem a manipulação daqueles e a deficiência de entrevistadores, do que a informação pela qual se espera. Raros entrevistados se permitem ir ao limite dos questionamentos razoáveis.

A condenação do país a ver e rever a projeção de um velho filme lembra o sentimento de Roberto Campos em 1999, quando se despedia da atividade legislativa. Naquela oportunidade, o então senador confessou-se melancólico – não por afastar-se de Brasília, que definiu “um bazar de ilusões e uma usina de déficits”. Seu desalento seria atribuído ao “fracasso” de sua geração “em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado”.

O Brasil mudou, mas o bazar de ilusões e a usina de déficits permanecem gerando pesadas contas que todos pagamos. A insistência num discurso com viés eleitoreiro, tatibitate, que usa reformas que nunca serão feitas como bandeira de coisa alguma evidencia que não faltam apenas verdade e compromisso nos discursos políticos.

Falta vergonha.

sábado, 19 de agosto de 2017

O feitiço pelo telefone


(Imagem: Pinterest)

Suponhamos uma sociedade organizada, em país onde a voz do cidadão seja ouvida e respeitada. Ali, para se desfazer do estoque de lançamentos encalhados, uma empresa recruta especialista em marketing e este, ansioso por mostrar serviço, arrebanha na fila dos desempregados um batalhão de vendedores.

Devidamente instruídos, esses valentes soldados saem em campo para caçar, de porta em porta, compradores para sua mercadoria. Batem à porta de uma residência pela manhã, mas não tendo aceita a oferta que apresentam, repetem-na à tarde em nova visita.

Achando que talvez não tivessem sido bastante claros, moradores reiteram a negativa. Indiferente a ela, a empresa novamente baterá às mesmas portas em outros tantos momentos do dia, insistindo em ofertas firmemente recusadas. E assim por meses a fio.

Avancemos ainda nesta suposição para alcançar uma autoridade do universo de legisladores, executores e fiscais dessa nobre atividade mercantil. Para se defender do oceano de reclamações dos cidadãos cotidianamente importunados – primeiro pelo toc-toc-toc, depois pelo esmurrar das portas de suas residências –, essa autoridade definirá a estratégia do suposto especialista em marketing como "um mal necessário". Para se livrar dela, caberá à população apenas ignorar a aporrinhação infernal de seus vendedores, até que a empresa se convença da inadequação da estratégia em prática.

E claro que, em realidade e curtíssimo prazo, tal situação custaria, quando nada, o emprego do vendedor, do tal 'especialista' em marketing e da autoridade, restando à empresa, como consequência, prejuízos financeiros acarretados por danos à sua imagem, além de indenizações por assédio aos cidadãos.

No Brasil, país onde a realidade supera em muito o imaginário, toda essa lógica, no entanto, talvez valesse apenas para abordagens onde vítima e algoz estivessem separados por uma porta ou por um botão de campainha. Quando a distância entre as partes é medida em quilômetros, livrando o chato de valentes e machadianas bengaladas de sua vítima (para supor o menos), as regras de mercado e de respeito ao cidadão desaparecem.

Essa é a realidade do telemarketing. A salvo dessa chatice, os figurões da República dão de ombros para esses e outros flagelos a que submetem seus eleitores. Até porque, legisladores – imagine-se! – usam o telemarketing para captar votos em campanhas eleitorais...

Pode demorar mais um pouquinho, mas esse feitiço vai se voltar contra os feiticeiros. A torcida é imensa. Não custa esperar.

domingo, 13 de agosto de 2017

O Pum

(Imagem: BETLR)


Com os narizes tapados para não respirar os odores fétidos exalados pelo noticiário, o país vive pequena pausa para celebrar os Pais, apesar das cores de melodrama oportunista com as quais a tevê se apropria da data.

Vale, então, pensar e repensar a paternidade – essa escalada de riscos capaz de ser largamente recompensada em bênçãos, amor e sorrisos suficientes para mitigar dores e lágrimas resultantes do cansaço nas retomadas do caminho.

Filhos são únicos, ainda que dois, cinco, dez ou mais. E netos também. Não pode haver político, prestação, taxa de juros ou assembleia de condomínio com poder destruidor capaz de tirar o brilho de dúvidas, descobertas, surpresas e sonhos de quem é futuro. Como as que se revelam, por exemplo, nos diálogos com Gabriel, que, em seus iminentes cinco anos de idade, é generosíssimo no trato social e nas reverências que o levam quase a tocar o chão com a testa.

Sagaz observador, anunciou, dia desses, que o carro do pai “tem ponta (antena) igual a outros carros”. E a meio caminho de casa, retornando da creche, freou subitamente a bicicleta. “Parei aqui porque quero soltar um pum, que vai subir até lá no alto, no céu". Em seguida, voltou a pedalar física e filosoficamente: “O pum é invisível, o fantasma também. O saci na garrafa também é invisível”.

Nada pode resistir a esses heróis do amanhã, a quem, os de cabeça branca, devemos bênçãos e reverências pelas reservas de otimismo e esperança que carregam consigo.

Quanto aos que nos fazem tapar os narizes em desespero, a estes bem poderíamos destinar o mais alentado pum. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Velhos amigos

(Imagem: Pinterest)


Encontraram-se no ônibus.

- É, esfriou de novo. Mas vai fazer calor – disse o que usava um gasto chapéu cinza. O outro fez que não ouviu.

- É a formiga que está dizendo: vai esquentar e vai chover... – insistiu.  O companheiro de viagem aceitou a provocação:

- É isso: formiga, quando começa a carregar folha, pode saber que vai chover.

Pronto. A faísca de conversa já se transformara em chama. O de chapéu acomodou-se no assento, pôs no chão entre as pernas uma sacola cheia de misterioso conteúdo envolvido em folhas de jornal, e cruzou os braços:

- Num é? Lá na minha terra a gente aprende essas coisas desde criança. O senhor é de onde? – perguntou cutucando o outro de leve com o cotovelo.

- De Bom Jardim.

- Gente... De Bom Jardim? Eu também, uai! Não me diga que é gente dos Gouvêa...

O companheiro pigarreou meio sem jeito, coçou a cabeça e respondeu que não. E voltou às formigas:

- Quando eu era criança, tinha um jardineiro que ia à casa da minha tia. Ele dizia que formigueiro é universidade, de tanta sabedoria.

O de chapéu abriu sorriso largo e, empolgado, deu um tapinha na perna do outro:

- Por acaso o nome desse jardineiro era seu Telêmaco?

- Não, era Barbosa. Seu Barbosa.

- Pois é... – e lá se foi outra cutucada. – Telêmaco Ruilando Barbosa. Era meu tio.

-Hum... Sei não. Pra todo mundo era seu Barbosa. Tinha uma bicicleta vermelha...

O sobrinho do jardineiro fez um gesto de desdém:

- Ah, mas essa era mais nova. Toda a vida ele andou numa Rabeneick verde.

Sem argumentos e ânimo para prosseguir, o outro se calou. O de chapéu tentava retomar a conversa a qualquer custo. Até que falou que o tio Telê era casado com dona Frasinha – “um doce de pessoa”. Foi aí que o companheiro acordou:

- Dona Frasinha? Eufrásia dos Mamão?

- É... Conheceu ela?

- Era madrinha da minha irmã.

Após um instante de silêncio, o do chapéu arriscou:

- Não me diga que sua irmã era a...

- Leninha.

- Isso, a Leninha. Amiga da Claudete, né?

- É.

O do chapéu ia dando outro tapinha na perna do irmão da Leninha que, esperto, fingiu ajeitar-se no banco para livrar-se de mais uma cutucada, que desta vez ficou no ar.

- Não é possível que então você seja o Vandavel... – quis saber o do chapéu.

- Sou o irmão dele, o Vandeval.

- Ô, Ventinho, nem te reconheci!

Vandeval não gostou de ter o apelido lembrado. Ia perguntar o nome do de chapéu, mas ele se antecipou:

- Lembra de mim, não? Sou o Kleber...

- Kleber... Kleber... - Vandeval se esforçou.

- Brito. Kleber Brito, lembra não?
Vandeval então se sentiu vingado ao recordar um anel usado pelo amigo de infância com a gravação "K. Brito".

- Ô, Cabritin, nem lembrava mais...

Mais que a nostalgia, foi a curiosidade recíproca que empurrava a prosa. Até que Cabritin falou de amor antigo, desses que ninguém esquece, apesar do tempo.

- Nunca mais vi a Claudete, Ventinho. Mas se encontrasse a danada hoje, ainda era capaz de fazer uma besteira...

O outro sorriu enigmático, enquanto acionava o sinal de parada. Antes de deixar o ônibus, disse que se lembrava da amiga da Leninha, pois se casara com ela.

Lá longe, um trovão anunciou chuva a caminho.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mãos, chapéu e pires


(Imagem: Google Images)

Crowdfunding.

Andreia acenou a palavra lá do outro lado do oceano. Trata-se de operação destinada a obter recursos para iniciativas de amplo interesse. A fonte, em geral, são pessoas físicas interessadas no objetivo final proposto. Resumindo, é um financiamento coletivo.

“Financiamento” é palavra de brilho ainda sedutor, embora possa sugerir cautela, desconfiança. Em muitos casos é armadilha. Já “interesse” é locomotiva de força descomunal, que se debilita quando atrelada a “coletivo”. A composição assim rasteja, desvia-se com facilidade do caminho original, para enveredar-se num cipoal indevassável de argumentos, evasivas e ... outros interesses.

Vestido com tão bem talhado traje, o tal financiamento coletivo assume alto posto, muito distante das mãos aflitas que clamam por seu socorro. Venal e insensível, o crowdfunding vez ou outra concede o beneplácito de sua atenção a quem lhe é recomendadíssimo. Ou consegue tocar-lhe o inalcançável bolso – proeza que só poucos e hábeis falantes conseguem cumprir.

É certo que mãos aflitas não nos faltam, sobretudo num Brasil de mãos agilíssimas e impunes de um lado, e cada vez mais violentas de outro. Da planície, tantas acenam para um crowdfunding tutelado reverentemente por mãos que escolhem e afastam, que acumulam e despedem.

Muitas dessas mãos estendidas são as da Cultura, em suas mais diversas manifestações, na arte ou no esporte: pintores, músicos, escritores, atores, compositores, coreógrafos, bailarinos, atletas... Para a maioria dessa gente, o crowdfunding é quase uma ficção.

O ex-piloto japonês de Fórmula 1, Kamui Kobayashi, só pôde correr pela Caterham em 2014 porque arrecadou, em doações dos fãs em apenas um ano, o então equivalente a quase 6,5 milhões de reais através de uma seção criada em seu site pessoal. Tanta generosidade em tão pouco tempo, entre nós, só é possível a determinadas figuras notórias, condenadas em última instância pela Justiça e mais ou menos mantidas ainda atrás das grades.

Quem cria, se esforça e produz arte no Brasil está fadado à mendicância, a conviver com um pires em uma mão e o chapéu na outra. Incentivos a partir de recursos públicos, na realidade, costumam ser mais eficazes como bandeiras políticas que distribuem migalhas, para cobrar retribuição em apoios e votos.

Minha leitora d’além mar é, assim, valorosa e otimista combatente nesse mundo das letras. Não só porque parece olhar com interesse para o crowdfunding, mas também porque distribui sua arte em papéis dobrados e aparentemente perdidos em locais públicos, atraindo dessa forma a curiosidade do leitor.

Independente de quanta seja a reserva de esperança no crowdfunding para montar e levar a público um bom espetáculo ou publicar e comercializar um livro, por exemplo, é útil ao esperançoso ter livre uma das mãos para acenar pedindo ajuda, sem deixar de levar um pires na outra.

E, compondo digna e prudentemente a figura, ter um chapéu na cabeça.


(Repost - Editado)

domingo, 18 de junho de 2017

Lembrar, lembrar...

(Imagem: Pinterest)

Esquecer todo mundo esquece. Uns mais, outros nem tanto. Porque memória mesmo, só de computador e elefante.

O chip já é a secretária mais eficiente e barata do mundo. Diferente daquela de quem se lamentava um executivo, lembrado do que queria esquecer e não do que precisava lembrar.

Depois de compromisso e guarda-chuva, que é mais fácil esquecer-se do que de sonhos? Há quem acorde na madrugada e, papel e lápis à mão, anote o que vinha sonhando. Apesar de não fazer qualquer sentido a maior parte do que se ‘viveu’ dormindo.

Esquecem-se lugares como estações ferroviárias, cidades... Na China existe Ordos, projetada para ter um milhão de habitantes, mas que não chega a ter mais do que alguns mil moradores.

Do pessoal da ginástica vem o alerta: embora não se esqueçam das novelas, as mulheres deixam passar em branco os músculos superiores, como bíceps, costas, trapézio e tríceps.

Há time de esquecidos, como o de ex-famosos: jogadores, atores, cantoras, políticos, benfeitores e malfeitores. Todos acabam na escuridão onde se recolhem promessas, desejos, antepassados, perguntas e respostas, amores e desamores. Otto Lara Resende escreveu sobre o sujeito que, burocrata de carreira, descobriu certa manhã que não se lembrava de como dar o nó na gravata.

Esquecimento já ajudou a fazer história. A pedido de D. João V, rei de Portugal (João Francisco Antônio José Bento Bernardo de Bragança, cognominado O Magnânimo), o Vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Meneses, encarregou-se de reunir informações sobre a colônia para a composição da História de Portugal. Para isto, tratou de fundar aqui, em abril de 1724, a Academia Brasílica dos Esquecidos.

Atestam os registros que o nome da academia teve origem no desencanto de seus membros, que esperavam ser chamados para compor os quadros da Real Academia de História Portuguesa, fundada pelo próprio D. João V e extinta 56 anos mais tarde por falta de atividade. Quanto à dos Esquecidos, sobreviveria apenas por 18 meses.

Além de remeter a título de filme e nome de bolinho em Portugal, esquecimento tanto significa o perdão como assinala a ingratidão.

Consolo mesmo acaba vindo pelo canto do salmista, para quem o Senhor tem compaixão dos que o temem ‘e não se esquece de que somos pó’ (Sl 102, 14).

domingo, 11 de junho de 2017

Dúvida de professora

(Imagem: Pinterest)


Há uma professora mineira, aposentada, recolhida em sua rotina de esposa, mãe, filha, avó e dona de casa, que, diante do noticiário da tevê, pensa alto lamentando a sorte dos professores de História do Brasil de amanhã. Como explicar, em sala de aula, a trajetória de um País tido como 'do futuro' desde a sua descoberta, e que tenha chegado ao século 21 em tão devastador estado de degradação moral e ética, com boa parte de suas elites e líderes políticos chafurdando numa pocilga de crimes contra a Nação?

Desnecessário reiterar sobre argumentos, explicações, desmentidos, denúncias e suspeitas. Inútil reter-se na tentativa de escolher um caminho entre a profusão de palpites, diagnósticos, soluções, pareceres e análises que não vão muito além de algo como agitar um abanador diante de um paciente trancafiado em forno de padaria aceso. O calor insuportável da vergonha que sentimos parece vir da usina de cinismo e arrogância que medra feito tiririca pelo país, a partir de Brasília.

Avançamos no caminho da democracia, mas a beira do abismo não se afasta dos nossos calcanhares. De olho no calendário e ao menor sinal de variação da temperatura política, o Congresso Nacional se esvazia, com a maioria de seus integrantes disparando em direção ao aeroporto da Capital Federal. É necessário esforço de super-herói para que inquéritos e investigações sobrevivam a larguíssimos prazos, pedidos de vista, manobras jurídicas e, claro, ao vermelho abrangente do calendário civil. Sem falar das ações que brotam dos cochichos em subterrâneos do Poder.

Diante do que vê – e tentando se preparar para o que ainda não sabe – o traído eleitor brasileiro se defronta com enorme desafio: o de resgatar a esperança de um futuro sem a rapinagem de quadrilhas de bolsos largos, mãos ágeis e discursos prontos. No passo em que seguimos, já será meio consolo constatar que, sobre honestidade, tudo o que parte de nossos representantes deve saber é que a palavra se escreve com a letra h.

De resto, sempre se tentará explicar tudo – ainda que com argumentos toscos e ofensivos à verdade.

Quanto à sociedade, a ela caberá responder com altivez e liberdade, sem optar jamais pela aquiescência ou pelo silêncio.

domingo, 4 de junho de 2017

É na cebola...

(Imagem: Pinterest)


Compadre Herval Lourenço andava com sua perrenguice sublinhada por um escorrimento de nariz interminável, uma bambeza de corpo, uns olhos lacrimejantes...

- É gripe, seu Lenço. Melhor jeito de acabar com ela é na cebola – diagnosticava a vizinha de três décadas. Que, aliás, já observara consigo mesma que ninguém poderia ter apelido mais adequado, já que o coitado do Herval Lourenço era visto quase sempre com um lenço nas mãos.

Anotada a receita, o homem aprumou-se na base da valentia e partiu para a aquisição de belíssima cebola roxa, cujo brilho provocou-lhe leve suspeita: e se aquilo fosse tinta? Raspou de leve com a unha a casca da cebola e viu que era qualidade mesmo. Bulbo de erva liliácea dos melhores.

“Descasque a cebola e deixe-a sobre a mesinha de cabeceira à noite, quando for deitar-se” – ditavam as instruções da vizinha e que Mariléia leu em voz alta, de pé ao lado da cama onde o marido aguardava com ansiedade a 'medicação'. O passo a passo indicava que se deveria cortar duas rodelas da cebola, colocá-las na curva dos pés do doente e, em seguida, calçar-lhe as meias.

Executadas as recomendações da vizinha, seu Lenço levantou-se, mas não conseguiu caminhar: as rodelas de cebola na sola dos pés pareciam dois paralelepípedos, tal o desconforto que provocavam. Era impossível dar mais que três passos sem curvar-se em dor, ardência, ou perder o equilíbrio. O jeito foi ficar na cama e tentar dormir mais cedo.

A receita da vizinha seguiria se desdobrando em surpresas: esmagadas nos pés do compadre Lenço, o caldo das rodelas de cebola escorria farto para o colchão, o que levou Mariléia a enrolar os pés do marido numa toalha.

- Ô, Léia, esse troço tá queimando meus pés... – reclamou o compadre no meio da noite.

Retiradas a toalha, as meias e as rodelas de cebola, permaneceram com o doente os olhos lacrimejantes, a secreção nasal e o mesmo desconforto. Já a mulher, preocupava-se agora em eliminar o cheiro forte da toalha, das meias e da casa.

Quando amanheceu o dia, providenciou-se um molho de 12 horas em água quente e sabão em pó para as meias – preparado eficaz e que Mariléia decidiu aproveitar lavando nele o pano de chão, que a catinga de cebola inutilizaria ao final do processo.

Mariléia ainda pensava numa saída para o cheiro do colchão, quando a vizinha telefonou para dizer que a receita daria resultado ainda mais porreta se, junto às rodelas de cebola, fosse acrescentada uma pitadinha de pó de um inalcançável cravo da Manchúria.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Diálogo

(Imagem: Pinterest)

Ela saiu do show de regaeton e permaneceu nas nuvens. Passou por dois ou três barzinhos até conseguir finalmente aterrissar, com o dia já nascendo. Dirigiu-se ao ponto de ônibus, onde ele se distraía com o celular enquanto aguardava condução.
- Aê tio, tava no show?
O homem assustou-se, mas disfarçou:
- Show? Que show?
- Tá me trollando, cara? Do DC Pow e da Luana Pê...
- De quem?
Ela encarou o interlocutor com um olhar, primeiro de surpresa, depois de desconfiança. Deu um muxoxo e escapou pelo celular. Ele insistiu:
- Essa tal de Luana é uma atriz de novela, né não?
- Eu shippo a Luana e o Pow porque a Luana é destruidora.
- O quê? Ela é black bloc?
- Cara, ela lacrou nas respostas que deu pro safadão do ex dela – ela disse ignorando a pergunta, apertando os olhos e sacudindo os braços.
- Taí, também curto o Safadão...
Silêncio. Voltando-se para o lado oposto, ela escondeu um sorriso de deboche.
- Ô busão que demora! Mó caô, aê: showzaço desse e a galera sem busão... – queixou-se.
- E esse tal de Pow, hein? O cara é bom? – o outro perguntou, na expectativa de não deixar morrer aquele fiapo de conversa que, sabe-se lá, poderia levá-los a um fim de noite agradável.
- Se o Pow é bom? Se existe alguém que dispensa um melhore é o Pow... Ele é crush. Quando sorriu pra mim eu fiquei morta.
- A melhor dupla, pra mim, é Zé Ricardo & Ezodracir. Tem igual não, viu? – entusiasmou-se o homem.
A fã do DC Pow e da Luana Pê fez careta de horror e resmungou entredentes um ‘seje menas’. Sem dar pela coisa, o outro prosseguiu:
- Eles cantando Roteiro de um Amor Amorzão é demais. Quem sabe essa Luana e o tal do Pow aí não gravam essa música, né? Se eles são bons como a gata tá falando...
A gata sorriu sem vontade, esquivou-se da mão cabeluda que já pousava em seu ombro, e nem se preocupou em disfarçar o desagrado. O outro entendeu o sorriso como aquiescência e a recusa como charme.
- Que tal se a gente fizesse nosso showzinho – eu no papel do tal de Pow apaixonado e você, no de Luana sonhadora? – o homem propôs com voz suave.
- Aê, tu fica aí batendo cola, mas tá na alta que não vai ter beira, tio... É o pu do pu da puca.
Dito isto, a gata deu um tchauzinho com a mão esquerda, enquanto a direita fazia sinal para o busão.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Teleburrice


(Imagem: Fran Carneros, em Pinterest)

Houve um tempo – e nem está tão distante assim – em que, para uma agência de publicidade, o cliente era rei, e seu mercado, um reino sagrado. Desdobrava-se, dava-se a cara a tapa, engoliam-se sapos de todos os tamanhos para manter a conta e ver o sorriso de satisfação na cara de quem, na visão de Ogilvy, fazia tilintar a caixa registradora.

Esse tempo virou passado. Salvo as exceções de praxe e que confirmam a regra, o que se percebe repercute como rispidez e falta de profissionalismo de parte a parte. Insinua-se nesse cenário uma espécie de vale-tudo, onde o que forra o chão da arena é o pobre consumidor sobre quem, excluído o bolso, se pisoteia à vontade.

No Brasil, consumidor e eleitor se aproximam nas dores e nos desencantos. Sobre o lombo de ambos costumam desabar as chibatadas da mentira, da manipulação e do desrespeito. Tudo estimulado por leis que não pegam ou, se pegam, são contornáveis como a lengalenga fácil com que se distrai uma criança de sua teima.

Estas considerações vêm a propósito de algo denominado telemarketing – uma ferramenta transformada em arma de destruição da imagem de quem não se importa com o desconforto que proporciona ao cliente. Aliás, o objetivo parece ser esse mesmo: azucrinar, irritar o cidadão que paga as contas até vê-lo pelas costas. Maneira eficaz de atacar a concorrência, desafiando o mercado prisioneiro de pegadinhas nas quais tropeça o pobre consumidor. E, como tantas vezes se tem visto, sob as bênçãos da autoridade complacente e cercada de burocracia, cuja disposição para aplicar sanções aos grandes faz lembrar aquelas espingardas que cuspiam uma rolha amarrada num cordão preso ao brinquedo.

Há cerca de 120 dias venho desatendendo e anotando, pacientemente, números que ligam para minha casa, assim como datas e horários em que acontecem as chamadas, com intervalos que chegam a até dois minutos entre uma e outra. E se dou publicidade a um determinado número, as ligações passam a acontecer temporariamente a partir de números diferentes – códigos binários e combinações de 11, 12, 13 e até 14 dígitos. Atendida alguma chamada, ou desligam, ou a fonte é identificada como banca de telemarketing que liga em nome de determinada empresa. Colocada em pesquisa do Google, uma combinação numérica levou a site de reclamações onde o nome que aparece é o de operadora de telefonia.

Se há um código de ética a ser seguido e leis a serem respeitadas pelo telemarketing, isto não está valendo – e não é de hoje, a julgar pelas operadoras que lideram o ranking das reclamações junto aos Procons.

Pergunto-me então que tipo de profissional de comunicação (se é que existe) estaria atendendo essa gente...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mudança

(Foto. Mariana Pietrobon)




Mariana publica em rede social, foto da bagagem que leva de mudança para outra casa, outro esconderijo para seus sonhos e sua solidão, suas lembranças e suas saudades. Diz que segue para um destino feliz, deixando para trás um lugar onde não foi muito feliz, nem muito triste.

Mudar-se é também deixar e carregar saudades. Casas vazias se parecem um pouco com ferrovias: evocam histórias, dizem de mudanças. Sobretudo quando se vai como Mariana, de quem sei de lágrima recente.

Os dias contam que não ser muito triste já equivale a ser feliz. Até porque, à exceção de Deus, nada e ninguém é perfeito.

O casal de velhos meus vizinhos anunciou que partiria de volta à terra natal, no Nordeste. Passa o tempo, e a permanência de ambos por aqui ganha jeitão de mudança – mas de planos. O que ao menos retarda a visão de uma casa silenciosa e vazia, onde tantas vezes a família se reuniu em alegres celebrações.

Mudança é ainda recomeço que faz morrer aos poucos tristes lembranças, transformando dores em chama de luminosa esperança. Este, o rastro que deixamos e que vale a pena ser seguido.

Antevejo o adeus de Mariana. Já lhe percebo as pegadas em flores coloridas, que ela diz retirar das lições e percalços da vida.

Aceno então de coração para aquela que, espero, seja a mais feliz das Marianas.



sábado, 29 de abril de 2017

Horizontes

(Imagem: Pinterest)


Atingida pelo tsunami de 2004, uma pequena cidade japonesa proporcionou naquela ocasião uma cena curiosa: um sobrevivente da catástrofe, de olhos fixos na linha do horizonte sobre o mar, mantinha-se vigilante tendo ao lado, imóvel, um seu semelhante. Encharcados ambos, o primeiro achegou-se ainda mais do outro ante a aproximação do cinegrafista.
Os dois personagens eram cães. O 'guardião' trazia no pescoço uma coleira e, por trás do focinho, um olhar de cão sem dono. A narração dava conta de que os animais seriam encaminhados a local apropriado, onde receberiam os cuidados necessários.
Naquela mesma semana outro cão protagonizaria cena notável, desta vez no Brasil. Assassinado provavelmente por grupos de extermínio que a polícia paulista ainda investigava, Cabeludo, um morador de rua, teria aos pés de seu cadáver um cachorro que não apenas impediria que alguém se aproximasse, como tentaria reanimar o dono lambendo-lhe as pernas.
O notável estreitamento no convívio entre seres humanos e seus animais de estimação cutuca a imaginação: acaso o fenômeno não seria também resultado do crescente desencanto com nossos semelhantes? Pesquisas já apontaram a existência de mais clínicas veterinárias do que hospitais no país. Igualmente vigorosa é também a expansão do setor de pet shops, e é possível que jamais se tenha dado tanta ênfase a campanhas em favor da adoção de animais como hoje.
Pela média, os anos de uma vida humana deixam atrás de si assustadora devastação na natureza. E isto inclui animais, de estimação ou não. Porém mesmo podendo pouco em relação à imprevisível e dominadora criatura, eles acabam tendo seu dia de caçador.
Ao tentar imitar um lobo em representação teatral, um estudante alagoano levaria acidentalmente um tiro do amigo que interpretava o caçador.
Procurando aninhar-se, uma galinha faria disparar uma espingarda abandonada pelo dono na localidade de Acarigua, na Venezuela. A bala atingiria o pulmão do descuidado, cujos revoltados familiares se vingariam da penosa mandando-a para a panela.
Cientistas asseguram que o futuro será dos insetos. Até lá, seguimos tentando nos comunicar melhor com os animais. Já se criou no Japão, aparelho que capta e interpreta latidos e outros sons de um cão, enquadrando-os nas categorias feliz, triste, de prontidão, frustrado, carente ou assertivo. Definido o estado emocional do totó, uma frase pertencente àquela categoria é selecionada aleatoriamente e exibida numa tela.
Pendurado no pescoço de outros animais, ou preso a galhos de árvores da Amazônia, o equipamento certamente exibiria na telinha um pedido de socorro.

(Repost - Editado)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A baleia e o ciclista

(Imagem: Pinterest, do álbum de Eliza Gramlich)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, no longínquo ano de 1988, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negaram ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.

Três décadas depois, pouco mudou. Só a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca, é a mesma. Os exemplos são recorrentes, e o mais recente nos chega também pela tevê, que mostra o desespero dos familiares de uma paciente em crise, à qual foi negado atendimento em uma unidade pública de saúde de Ribeirão das Neves, Minas Gerais. Motivo: os médicos estavam em greve pela falta do pagamento de seus salários.

Parece inútil implorar socorro diante de uma vida humana que se esvai. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os recursos destinados a garantir retorno ao cidadão que paga impostos. Assim como as próprias urgências de bolso, é preciso ainda satisfazer a goela que alardeia o que o caráter do sujeito não o deixará cumprir.

O perigo que nos ameaça não é a baleia azul, mas o oceano de indiferença que escolhemos para navegar em canoa furada. Além de garantir espaço na mídia, dá mais ibope o gato de rua que mobiliza um prédio inteiro em solidariedade. Assim como a tartaruga maltratada ou o pato atropelado que ganha prótese especial. A era não é só do egoísmo, mas do bicho.

Encarapitar-se na própria soberba ou tangenciar, em despreparo, a sombra do Poder, é tantas vezes suficiente para desprezar o indivíduo e ignorar sua dignidade. Pessoa é gente. E gente é conjunto, é povo. E povo é massa.

Invisível como ciclistas no meio do trânsito.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Carochinha revisitada

(Imagem: Pinterest)

Há mais de um século era lançado no Rio, pela Livraria Quaresma, o livro Contos da Carochinha – considerado o primeiro texto da literatura infantil escrito em português do Brasil, compilado e redigido pelo jornalista Alberto Figueiredo Pimentel.

No tempo da Inquisição, denominava-se carocha uma espécie de mitra extravagante que os condenados eram obrigados a ostentar, a caminho do suplício. A palavra chegou às salas de aula para identificar uma carapuça de papel, posta como castigo nos alunos que se comportavam mal. Além de outros significados pouco relevantes, carocha era também sinônimo de bruxa ou bruxaria e, na literatura, acabou se transformando em denominação de narrativa fantasiosa – uma mentira. O diminutivo do vocábulo – carochinha – foi dar em título do livro em questão.

Em outubro de 1930, a mesma editora lançou Histórias da Avosinha, obra com 370 páginas e 131 gravuras desenhadas por Julião Machado. Em uma das estórias, intitulada “O bom juiz”, o personagem Zenobio é “empregado da Limpeza Pública”, e porque “necessitava sustentar numerosa família, trabalhava alegremente, sem se importar com os tolos preconceitos sociais”.

Em uma de suas varreduras, o personagem encontra uma carteira recheada com muito dinheiro da época – cem mil réis. Depois de algum empenho, o homem consegue localizar o dono do achado – um comerciante avaro que, diante do delegado, acusa injustamente o gari de ter surrupiado 10 por cento daquela quantia. Convicto da honestidade do trabalhador, o juiz então determina que o mesmo fique com a carteira e o dinheiro, uma vez que a vítima alegava ter perdido cem mil réis, e não noventa mil.

Passadas mais de oito décadas, os contrastes da narrativa são tão evidentes quanto cruéis. Nenhum gari, para sustentar 'numerosa família' com seu salário, trabalhará alegremente, sem se importar com os preconceitos sociais. Caso encontre uma carteira recheada de reais, euros ou dólares (e decidindo-se por sua devolução ao dono), não passará por uma delegacia de polícia e muito menos por um juiz, mas acabará virando notícia na tevê que, para garantir audiência, emprestará ao fato a pieguice habitual. A par da fama instantânea e fugaz, nosso herói terminaria em Brasília, com direito a audiência na Presidência da República. E é lá, nas vizinhanças do Palácio do Planalto, na contramão das honras que se prestaria à Honestidade, é que, hoje, homens do governo tentam justificar o injustificável – atos secretos que nomeiam, criam despesas e trazem à tona revelações que fariam corar o abajur do justo juiz de Histórias da Avosinha.

Como nada se perde (ou deveria se perder, em se tratando de experiência), a carapuça de papel nos ficaria bem. Esconderia nossa indiferença, fazendo-nos passar por envergonhados diante de tanta desfaçatez. A carocha-bruxa já existe, e vez ou outra se solta no cenário oficial da Capital, espalhando-se pelo país e chegando a governos estaduais e prefeituras.

Da carochinha mesmo seriam discursos e declarações oficiais que ouvimos, nos quais ainda há quem insista ou finja acreditar.

(Reeditado - Repost)

domingo, 2 de abril de 2017

Bla bla bla

(Imagem: Pinterest / Sainer)


É favor que não me façam ver sorrisos de cinismo e escárnio, nem ouvir discursos e declarações que sublinhem históricas necessidades e veteranas urgências nacionais. Não quero ouvir promessas rasas, às quais uma coreografia teatral tenta emprestar ênfase e credibilidade.

Cansei de ler frases feitas, com acusações e suspeitas sobre isso e aquilo, assim como afirmações que não se confirmam e desmentidos que se desmentem. Pressinto o adiamento reiterado de uma justiça que, anunciada, surge tímida, para sair de cena aos poucos, de fininho. À francesa, como se dizia.

Desnecessário que se reiterem monótonas e repugnantes notas de esclarecimento que não esclarecem, assim como a existência de prazos quase infinitos para a defesa do indefensável. Também não me interessa a repetição sonolenta da voz oficial, que transmite e oficializa a morosidade que escala o tempo como um bicho preguiça.

Por favor, parem de repetir que calúnia e difamação serão desmascaradas pela verdade – palavra que rasteja em andrajos, sem fôlego e sem crédito. Ao contrário de outras, como pensática por exemplo. Oculta no anonimato e, ao que parece, distante de qualquer definição etimológica (atenção, escritor e diplomata Marcelo Cid!), uma sua assemelhada – a palavra solucionática –  já se aproxima dos dicionários.

Tendo alcançado esta altura dos rogos que faço, sugiro que mandemos ao descanso merecido a palavra preconceito. Sem fôlego, a pobre coitada anda de queda em queda aqui e ali, despertando olhares incrédulos e duvidosos.

Mais do que falar em esperança, tratemos de induzi-la e justificá-la às gerações que vem vindo.

Porque elas não precisarão, nem de mitos, nem de heróis.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Lágrima possível

(Imagem: Pinterest)

O velho que morre num quarto de hotel, esquecido e só, é imagem cinematográfica e persistente. É a ela que recorro, indagando se não deveríamos trazê-la viva na memória. Uma tentativa de nos aquecermos por dentro, evitando a pedra em que nossas urgências vão nos transformando.
O escritor Chico Lopes é quem nos traz essa palavra aflitiva. Nada lhe parece mais tenebroso do que uma morte solitária. Há velhos que morrem assim em quartos de hotéis, em filas de desassistidos, sob as pontes, nos asilos, nas casas de repouso, nos hospitais. Tantos passam pela vida sem deixar rastros, lembranças, sinais. Sem deixar nada. Vão como vieram: anônimos e sós, completamente sós.
Pesquisa feita em Portugal revelou que é em épocas festivas, como Natal e fim de ano, que pessoas costumam abandonar seus velhos em asilos e hospitais. Adiam um incômodo resgate de forma a usufruírem, com tranqüilidade e sem atropelos, os momentos de celebração e alegria. É como o sujeito que não quer se aborrecer no feriadão porque não pagou a prestação vencida. Isto é assunto para se enfrentar na retomada da escravidão, nos dias cinzentos de trabalho. Isto é assunto de segunda-feira.
Existem tantas definições, tantos rótulos para esse mistério insondável que é a vida. Há sabedorias que a definem como escolhas, momentos, recomeços. Dizem também que vida são acertos e erros, opiniões, oportunidades, som e luxúria, caminhos... Mistério que se banaliza num mundo de 'pequenos nadas', onde somos levados a valorizar ícones e paixões. O menisco estourado do craque da bola vale muito mais do que a experiência e a vida do tal velho que morre solitário num quarto de hotel.
O mercado olha para o idoso com arremedo de comiseração, entrevendo uma fresta para vender excursão, remédio e empréstimo consignado. Fora isso, velho é dor de cabeça. O analgésico é levá-lo para a fila dos maiores de 60 anos. Ou dar-lhe passagem gratuita no transporte urbano. Benesses, favores ao invés de reconhecimento e respeito.
São ruidosos os guizos que a TV agita ao nosso redor. Eles nos fascinam e nos inebriam. Fazem-nos esquecer nossa finitude, tão certa e pronta. Nosso amanhã de provável solidão. Na telinha, nossos dramas são, a um só tempo, glamurosos e voláteis. Passados poucos dias do último capítulo, e já não seremos capazes de nos lembrar do título da novela. Logo virá outra, e outra...
E se em alguma delas nos depararmos com o tal velho solitário morrendo num quarto de hotel, aí, sim, talvez a cena nos arranque alguma lágrima.

(Repost - Reeditado)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Faro amigo


(Imagem: MTLR)

Em cima da cama do casal, ela lixava pacientemente as unhas enquanto ele, entediado, assistia o telejornal na sala. A quitinete só não era um forno de padaria porque ela abrira a porta envidraçada, que separava o quarto de uma diminuta área externa.
- O Barata, amor! Acho que vi o Barata na tevê, aquele safado...
O Barata era o canalha travestido de corretor de imóveis e que aplicara nele, e em mais meia dúzia de sonhadores com a casa própria, um golpe que os deixara sem dinheiro e de muito mau humor.
- Hum-hum... – ela gemeu lá do quarto, enquanto esticava o pescoço para ver o que o Piquê tanto farejava na tal área externa. A descoberta acabou num grito:
- Aiii, barata amor!
- Pois é, o picareta... Acho que era ele. A cena foi rápida, mas eles vão mostrar de novo a entrevista com o técnico. O safado estava logo atrás, dando uma de papagaio-de-pirata...
- Né não, amor. É barata bicho. O Piquê tá lá brincando com ela...
- O quê? É o Barata, aquele corretor pilantra...
Ela bateu com força a porta envidraçada, deixando do lado de fora o cachorro e a barata. Em seguida, deu dois passos e chegou até a sala.
- Amor, presta atenção: é barata, tem que matar...
Ele concordou, sem desviar os olhos da tevê.
- Dá vontade mesmo, viu... Se não fosse crime, eu ia ser o primeiro a torcer-lhe o pescoço.
Mais um passo, e ela já se posicionara entre ele e o aparelho de tevê. Agarrando o marido pelos ombros, sacudiu-o até que seus óculos saltaram da ponta do nariz, indo parar no chão.
- Nossa, amor, isso tudo é raiva do Barata?
- É, mas é DA barata. Barata bicho, que tá lá fora. O Piquê...
- Ah, tá – ele resmungou, afastando com o braço a mulher da sua frente. – Daqui a pouco eu vou lá.
Ela fez uma careta engraçada e franziu o nariz. Depois voltou para o quarto caminhando na ponta dos pés, como se o chão da sala estivesse coberto de insetos. Perto da porta, esticou o pescoço e viu o cachorro deitado num retângulo de sombra, a poucos centímetros da barata cascuda, que se fazia de morta numa quina de parede. Com extrema cautela, abriu uma fresta e chamou o cachorro, que entrou agitado. Ela reagiu:
- Piquê, para de ficar pulando em mim com essas patas de barata...
Depois de lavar e desinfetar com álcool as patinhas do cachorro, ela insistiu:
- Amor, não esquece não, viu?
- Ahn?
- A barata, amor! Ela ta lá, mexendo aqueles chifres enormes...
Ele continuava só atenção para o programa esportivo na tevê. Ela então enroscou-se sob um fino lençol e, antes de cair no sono, emitiu, lá das profundezas de sua caverna, um grito abafado:
- A barata, amor!
Acordou no meio da madrugada com o ronco do marido. Acendeu a telinha do celular tentando, em vão, enxergar através do vidro da porta. .
- Amor, acorda!
- Ahn?
- A barata, amor. Você não esqueceu de matar ela não, né?
Ele resmungou algo como “era ele não”, virou-se para o outro lado e desmaiou de novo.
Precavida, ela tirou do chão os chinelinhos e os colocou ao alcance das mãos, sobre a mesinha de cabeceira, antes de pegar no sono novamente.

(Reeditado)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Super o quê, mesmo?

(Imagem: Pinterest

 


Há tempos, pesquisando jornais antigos no Arquivo Público Mineiro, dei com o resultado de uma enquete realizada em escola estadual de Belo Horizonte na década de 30. Foram ouvidas crianças de ambos os sexos, com idade entre 11 e 13 anos – todos, alunos do então 4º ano primário. O objetivo era conhecer melhor os interesses dos jovens.

Tarzan, o super-herói da época, era apontado por apenas três dos pesquisados como o modelo a ser imitado. É claro, citavam-se outros paradigmas, sobretudo atores e atrizes do cinema e gente da música. Porém, a referência de vida para a maioria eram então os próprios pais.

Feitas hoje, enquetes semelhantes talvez surpreendessem pelos seus resultados. Nossos super-heróis não são mais quem se esfalfa pela sobrevivência honesta e digna da família. Para preencher o vazio de caminhos seguros aos que, muito cedo, conhecem descaminhos, há atualmente extraordinária variedade de personagens bizarros e opções de consumo.

De outro lado, é tentador supor sobrancelhas erguidas pela suspeita de que educar, associando conhecimento a princípios morais e éticos, seja o atalho para tolher a liberdade de escolha. Afinal, quem educa é o Estado, ou a família é parte indissociável nesse processo?

Em esclarecedora entrevista a O Globo, o filósofo Bernard-Henri Lévy lamenta o avanço dos Estados democráticos na direção errada: a do populismo e do niilismo. "Hoje, a mentira e a verdade tem o mesmo status, e é muito difícil distinguir uma da outra", acrescenta ele.

Teleguiados, é possível que boa parte de nós deixe escapar pedido como o que fez o papa Francisco, para que os fiéis carreguem e leiam a Bíblia como se fosse um celular. Sua Santidade não o disse naquela ocasião, mas poderia ter sugerido também que se cultuem menos ídolos e super-heróis, substituindo-os, por exemplo, pela presença de um crucifixo em casa de quem tem fé ou anda precisando dela. 

É, desde sempre, a única saída. Sobretudo para os tempos de enrosco em que nos metemos.