segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Escassa vergonha

(Imagem: Pinterest)

Quais vozes de grande alcance falam hoje, no Brasil, o que a sociedade quer escutar?

A resposta é nenhuma. Pobres no conteúdo e tremulantes na gramática, os discursos, além de enfadonhos, provavelmente manterão no caminho entre o desalento e o desespero quem lhes dê atenção.

"O Relator já fez a concessão da aposentadoria aos 55 anos para ser aprovada a reforma – falava-se em 60 anos – e não passou. O Governo não está conduzindo como deveria. O Congresso não está se comportando como deveria".

Estas afirmações – atualíssimas – foram feitas pelo então senador Pedro Simon, em aparte do colega Jefferson Peres, em sessão do Senado realizada em Maio de 1996. Na ocasião, era discutida a reforma da Previdência que, anunciava-se, estava "quebrada". – "Nessa questão, é possível se oferecerem alternativas racionais para a Previdência. Temos que dar condições para que essa Previdência possa funcionar", enfatizava o senador gaúcho.

Refém de anunciado furacão de verdades, logo transformado em tempestade tropical de dúvidas, a sociedade continua vendo de pé torres de marfim, enquanto se debate para não submergir em meio à pulverização de culpas.

Bem próximas da oratória oficial, as entrevistas coletivas, habitualmente reduzidas a pouco mais que um pronunciamento do entrevistado ou a leitura de uma nota oficial, mais expõem a manipulação daqueles e a deficiência de entrevistadores, do que a informação pela qual se espera. Raros entrevistados se permitem ir ao limite dos questionamentos razoáveis.

A condenação do país a ver e rever a projeção de um velho filme lembra o sentimento de Roberto Campos em 1999, quando se despedia da atividade legislativa. Naquela oportunidade, o então senador confessou-se melancólico – não por afastar-se de Brasília, que definiu “um bazar de ilusões e uma usina de déficits”. Seu desalento seria atribuído ao “fracasso” de sua geração “em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado”.

O Brasil mudou, mas o bazar de ilusões e a usina de déficits permanecem gerando pesadas contas que todos pagamos. A insistência num discurso com viés eleitoreiro, tatibitate, que usa reformas que nunca serão feitas como bandeira de coisa alguma evidencia que não faltam apenas verdade e compromisso nos discursos políticos.

Falta vergonha.

sábado, 19 de agosto de 2017

O feitiço pelo telefone


(Imagem: Pinterest)

Suponhamos uma sociedade organizada, em país onde a voz do cidadão seja ouvida e respeitada. Ali, para se desfazer do estoque de lançamentos encalhados, uma empresa recruta especialista em marketing e este, ansioso por mostrar serviço, arrebanha na fila dos desempregados um batalhão de vendedores.

Devidamente instruídos, esses valentes soldados saem em campo para caçar, de porta em porta, compradores para sua mercadoria. Batem à porta de uma residência pela manhã, mas não tendo aceita a oferta que apresentam, repetem-na à tarde em nova visita.

Achando que talvez não tivessem sido bastante claros, moradores reiteram a negativa. Indiferente a ela, a empresa novamente baterá às mesmas portas em outros tantos momentos do dia, insistindo em ofertas firmemente recusadas. E assim por meses a fio.

Avancemos ainda nesta suposição para alcançar uma autoridade do universo de legisladores, executores e fiscais dessa nobre atividade mercantil. Para se defender do oceano de reclamações dos cidadãos cotidianamente importunados – primeiro pelo toc-toc-toc, depois pelo esmurrar das portas de suas residências –, essa autoridade definirá a estratégia do suposto especialista em marketing como "um mal necessário". Para se livrar dela, caberá à população apenas ignorar a aporrinhação infernal de seus vendedores, até que a empresa se convença da inadequação da estratégia em prática.

E claro que, em realidade e curtíssimo prazo, tal situação custaria, quando nada, o emprego do vendedor, do tal 'especialista' em marketing e da autoridade, restando à empresa, como consequência, prejuízos financeiros acarretados por danos à sua imagem, além de indenizações por assédio aos cidadãos.

No Brasil, país onde a realidade supera em muito o imaginário, toda essa lógica, no entanto, talvez valesse apenas para abordagens onde vítima e algoz estivessem separados por uma porta ou por um botão de campainha. Quando a distância entre as partes é medida em quilômetros, livrando o chato de valentes e machadianas bengaladas de sua vítima (para supor o menos), as regras de mercado e de respeito ao cidadão desaparecem.

Essa é a realidade do telemarketing. A salvo dessa chatice, os figurões da República dão de ombros para esses e outros flagelos a que submetem seus eleitores. Até porque, legisladores – imagine-se! – usam o telemarketing para captar votos em campanhas eleitorais...

Pode demorar mais um pouquinho, mas esse feitiço vai se voltar contra os feiticeiros. A torcida é imensa. Não custa esperar.

domingo, 13 de agosto de 2017

O Pum

(Imagem: BETLR)


Com os narizes tapados para não respirar os odores fétidos exalados pelo noticiário, o país vive pequena pausa para celebrar os Pais, apesar das cores de melodrama oportunista com as quais a tevê se apropria da data.

Vale, então, pensar e repensar a paternidade – essa escalada de riscos capaz de ser largamente recompensada em bênçãos, amor e sorrisos suficientes para mitigar dores e lágrimas resultantes do cansaço nas retomadas do caminho.

Filhos são únicos, ainda que dois, cinco, dez ou mais. E netos também. Não pode haver político, prestação, taxa de juros ou assembleia de condomínio com poder destruidor capaz de tirar o brilho de dúvidas, descobertas, surpresas e sonhos de quem é futuro. Como as que se revelam, por exemplo, nos diálogos com Gabriel, que, em seus iminentes cinco anos de idade, é generosíssimo no trato social e nas reverências que o levam quase a tocar o chão com a testa.

Sagaz observador, anunciou, dia desses, que o carro do pai “tem ponta (antena) igual a outros carros”. E a meio caminho de casa, retornando da creche, freou subitamente a bicicleta. “Parei aqui porque quero soltar um pum, que vai subir até lá no alto, no céu". Em seguida, voltou a pedalar física e filosoficamente: “O pum é invisível, o fantasma também. O saci na garrafa também é invisível”.

Nada pode resistir a esses heróis do amanhã, a quem, os de cabeça branca, devemos bênçãos e reverências pelas reservas de otimismo e esperança que carregam consigo.

Quanto aos que nos fazem tapar os narizes em desespero, a estes bem poderíamos destinar o mais alentado pum. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Velhos amigos

(Imagem: Pinterest)


Encontraram-se no ônibus.

- É, esfriou de novo. Mas vai fazer calor – disse o que usava um gasto chapéu cinza. O outro fez que não ouviu.

- É a formiga que está dizendo: vai esquentar e vai chover... – insistiu.  O companheiro de viagem aceitou a provocação:

- É isso: formiga, quando começa a carregar folha, pode saber que vai chover.

Pronto. A faísca de conversa já se transformara em chama. O de chapéu acomodou-se no assento, pôs no chão entre as pernas uma sacola cheia de misterioso conteúdo envolvido em folhas de jornal, e cruzou os braços:

- Num é? Lá na minha terra a gente aprende essas coisas desde criança. O senhor é de onde? – perguntou cutucando o outro de leve com o cotovelo.

- De Bom Jardim.

- Gente... De Bom Jardim? Eu também, uai! Não me diga que é gente dos Gouvêa...

O companheiro pigarreou meio sem jeito, coçou a cabeça e respondeu que não. E voltou às formigas:

- Quando eu era criança, tinha um jardineiro que ia à casa da minha tia. Ele dizia que formigueiro é universidade, de tanta sabedoria.

O de chapéu abriu sorriso largo e, empolgado, deu um tapinha na perna do outro:

- Por acaso o nome desse jardineiro era seu Telêmaco?

- Não, era Barbosa. Seu Barbosa.

- Pois é... – e lá se foi outra cutucada. – Telêmaco Ruilando Barbosa. Era meu tio.

-Hum... Sei não. Pra todo mundo era seu Barbosa. Tinha uma bicicleta vermelha...

O sobrinho do jardineiro fez um gesto de desdém:

- Ah, mas essa era mais nova. Toda a vida ele andou numa Rabeneick verde.

Sem argumentos e ânimo para prosseguir, o outro se calou. O de chapéu tentava retomar a conversa a qualquer custo. Até que falou que o tio Telê era casado com dona Frasinha – “um doce de pessoa”. Foi aí que o companheiro acordou:

- Dona Frasinha? Eufrásia dos Mamão?

- É... Conheceu ela?

- Era madrinha da minha irmã.

Após um instante de silêncio, o do chapéu arriscou:

- Não me diga que sua irmã era a...

- Leninha.

- Isso, a Leninha. Amiga da Claudete, né?

- É.

O do chapéu ia dando outro tapinha na perna do irmão da Leninha que, esperto, fingiu ajeitar-se no banco para livrar-se de mais uma cutucada, que desta vez ficou no ar.

- Não é possível que então você seja o Vandavel... – quis saber o do chapéu.

- Sou o irmão dele, o Vandeval.

- Ô, Ventinho, nem te reconheci!

Vandeval não gostou de ter o apelido lembrado. Ia perguntar o nome do de chapéu, mas ele se antecipou:

- Lembra de mim, não? Sou o Kleber...

- Kleber... Kleber... - Vandeval se esforçou.

- Brito. Kleber Brito, lembra não?
Vandeval então se sentiu vingado ao recordar um anel usado pelo amigo de infância com a gravação "K. Brito".

- Ô, Cabritin, nem lembrava mais...

Mais que a nostalgia, foi a curiosidade recíproca que empurrava a prosa. Até que Cabritin falou de amor antigo, desses que ninguém esquece, apesar do tempo.

- Nunca mais vi a Claudete, Ventinho. Mas se encontrasse a danada hoje, ainda era capaz de fazer uma besteira...

O outro sorriu enigmático, enquanto acionava o sinal de parada. Antes de deixar o ônibus, disse que se lembrava da amiga da Leninha, pois se casara com ela.

Lá longe, um trovão anunciou chuva a caminho.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mãos, chapéu e pires


(Imagem: Google Images)

Crowdfunding.

Andreia acenou a palavra lá do outro lado do oceano. Trata-se de operação destinada a obter recursos para iniciativas de amplo interesse. A fonte, em geral, são pessoas físicas interessadas no objetivo final proposto. Resumindo, é um financiamento coletivo.

“Financiamento” é palavra de brilho ainda sedutor, embora possa sugerir cautela, desconfiança. Em muitos casos é armadilha. Já “interesse” é locomotiva de força descomunal, que se debilita quando atrelada a “coletivo”. A composição assim rasteja, desvia-se com facilidade do caminho original, para enveredar-se num cipoal indevassável de argumentos, evasivas e ... outros interesses.

Vestido com tão bem talhado traje, o tal financiamento coletivo assume alto posto, muito distante das mãos aflitas que clamam por seu socorro. Venal e insensível, o crowdfunding vez ou outra concede o beneplácito de sua atenção a quem lhe é recomendadíssimo. Ou consegue tocar-lhe o inalcançável bolso – proeza que só poucos e hábeis falantes conseguem cumprir.

É certo que mãos aflitas não nos faltam, sobretudo num Brasil de mãos agilíssimas e impunes de um lado, e cada vez mais violentas de outro. Da planície, tantas acenam para um crowdfunding tutelado reverentemente por mãos que escolhem e afastam, que acumulam e despedem.

Muitas dessas mãos estendidas são as da Cultura, em suas mais diversas manifestações, na arte ou no esporte: pintores, músicos, escritores, atores, compositores, coreógrafos, bailarinos, atletas... Para a maioria dessa gente, o crowdfunding é quase uma ficção.

O ex-piloto japonês de Fórmula 1, Kamui Kobayashi, só pôde correr pela Caterham em 2014 porque arrecadou, em doações dos fãs em apenas um ano, o então equivalente a quase 6,5 milhões de reais através de uma seção criada em seu site pessoal. Tanta generosidade em tão pouco tempo, entre nós, só é possível a determinadas figuras notórias, condenadas em última instância pela Justiça e mais ou menos mantidas ainda atrás das grades.

Quem cria, se esforça e produz arte no Brasil está fadado à mendicância, a conviver com um pires em uma mão e o chapéu na outra. Incentivos a partir de recursos públicos, na realidade, costumam ser mais eficazes como bandeiras políticas que distribuem migalhas, para cobrar retribuição em apoios e votos.

Minha leitora d’além mar é, assim, valorosa e otimista combatente nesse mundo das letras. Não só porque parece olhar com interesse para o crowdfunding, mas também porque distribui sua arte em papéis dobrados e aparentemente perdidos em locais públicos, atraindo dessa forma a curiosidade do leitor.

Independente de quanta seja a reserva de esperança no crowdfunding para montar e levar a público um bom espetáculo ou publicar e comercializar um livro, por exemplo, é útil ao esperançoso ter livre uma das mãos para acenar pedindo ajuda, sem deixar de levar um pires na outra.

E, compondo digna e prudentemente a figura, ter um chapéu na cabeça.


(Repost - Editado)

domingo, 18 de junho de 2017

Lembrar, lembrar...

(Imagem: Pinterest)

Esquecer todo mundo esquece. Uns mais, outros nem tanto. Porque memória mesmo, só de computador e elefante.

O chip já é a secretária mais eficiente e barata do mundo. Diferente daquela de quem se lamentava um executivo, lembrado do que queria esquecer e não do que precisava lembrar.

Depois de compromisso e guarda-chuva, que é mais fácil esquecer-se do que de sonhos? Há quem acorde na madrugada e, papel e lápis à mão, anote o que vinha sonhando. Apesar de não fazer qualquer sentido a maior parte do que se ‘viveu’ dormindo.

Esquecem-se lugares como estações ferroviárias, cidades... Na China existe Ordos, projetada para ter um milhão de habitantes, mas que não chega a ter mais do que alguns mil moradores.

Do pessoal da ginástica vem o alerta: embora não se esqueçam das novelas, as mulheres deixam passar em branco os músculos superiores, como bíceps, costas, trapézio e tríceps.

Há time de esquecidos, como o de ex-famosos: jogadores, atores, cantoras, políticos, benfeitores e malfeitores. Todos acabam na escuridão onde se recolhem promessas, desejos, antepassados, perguntas e respostas, amores e desamores. Otto Lara Resende escreveu sobre o sujeito que, burocrata de carreira, descobriu certa manhã que não se lembrava de como dar o nó na gravata.

Esquecimento já ajudou a fazer história. A pedido de D. João V, rei de Portugal (João Francisco Antônio José Bento Bernardo de Bragança, cognominado O Magnânimo), o Vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Meneses, encarregou-se de reunir informações sobre a colônia para a composição da História de Portugal. Para isto, tratou de fundar aqui, em abril de 1724, a Academia Brasílica dos Esquecidos.

Atestam os registros que o nome da academia teve origem no desencanto de seus membros, que esperavam ser chamados para compor os quadros da Real Academia de História Portuguesa, fundada pelo próprio D. João V e extinta 56 anos mais tarde por falta de atividade. Quanto à dos Esquecidos, sobreviveria apenas por 18 meses.

Além de remeter a título de filme e nome de bolinho em Portugal, esquecimento tanto significa o perdão como assinala a ingratidão.

Consolo mesmo acaba vindo pelo canto do salmista, para quem o Senhor tem compaixão dos que o temem ‘e não se esquece de que somos pó’ (Sl 102, 14).

domingo, 11 de junho de 2017

Dúvida de professora

(Imagem: Pinterest)


Há uma professora mineira, aposentada, recolhida em sua rotina de esposa, mãe, filha, avó e dona de casa, que, diante do noticiário da tevê, pensa alto lamentando a sorte dos professores de História do Brasil de amanhã. Como explicar, em sala de aula, a trajetória de um País tido como 'do futuro' desde a sua descoberta, e que tenha chegado ao século 21 em tão devastador estado de degradação moral e ética, com boa parte de suas elites e líderes políticos chafurdando numa pocilga de crimes contra a Nação?

Desnecessário reiterar sobre argumentos, explicações, desmentidos, denúncias e suspeitas. Inútil reter-se na tentativa de escolher um caminho entre a profusão de palpites, diagnósticos, soluções, pareceres e análises que não vão muito além de algo como agitar um abanador diante de um paciente trancafiado em forno de padaria aceso. O calor insuportável da vergonha que sentimos parece vir da usina de cinismo e arrogância que medra feito tiririca pelo país, a partir de Brasília.

Avançamos no caminho da democracia, mas a beira do abismo não se afasta dos nossos calcanhares. De olho no calendário e ao menor sinal de variação da temperatura política, o Congresso Nacional se esvazia, com a maioria de seus integrantes disparando em direção ao aeroporto da Capital Federal. É necessário esforço de super-herói para que inquéritos e investigações sobrevivam a larguíssimos prazos, pedidos de vista, manobras jurídicas e, claro, ao vermelho abrangente do calendário civil. Sem falar das ações que brotam dos cochichos em subterrâneos do Poder.

Diante do que vê – e tentando se preparar para o que ainda não sabe – o traído eleitor brasileiro se defronta com enorme desafio: o de resgatar a esperança de um futuro sem a rapinagem de quadrilhas de bolsos largos, mãos ágeis e discursos prontos. No passo em que seguimos, já será meio consolo constatar que, sobre honestidade, tudo o que parte de nossos representantes deve saber é que a palavra se escreve com a letra h.

De resto, sempre se tentará explicar tudo – ainda que com argumentos toscos e ofensivos à verdade.

Quanto à sociedade, a ela caberá responder com altivez e liberdade, sem optar jamais pela aquiescência ou pelo silêncio.