sábado, 20 de janeiro de 2018

Truques e blablabás


(Imagem: Pinterest)

O primeiro relato oficialmente registrado do chamado 'truque indiano da corda' foi publicado por um jornal de Chicago em agosto de 1890. Viajando pela Índia, um pintor e um fotógrafo viram um faquir de rua jogar para o alto um rolo de corda, cuja ponta solta ele prendera pelos dentes. A corda se desenrolou, até que a outra extremidade desapareceu do campo visual. Em seguida, um garotinho subiu pela corda, e quando estava a cerca de dez metros de altura, sumiu. O pintor fez um esboço do evento, e o fotógrafo registrou com sua câmera, mas quando as fotos foram reveladas, não mostraram nem corda nem menino. Havia apenas o faquir sentado no chão.

Apesar de repetidamente desacreditado, o truque conservou sua credibilidade até ser revelado firme e decisivamente como um embuste em 2005, quando um pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia - Peter Karl Lamont - o deu como exemplo clássico de como as ilusões da memória se enraízam na mente humana.

O episódio é relatado por Stephen L. Macknik e Susana Martinez-Conde, dois diretores de laboratórios do Instituto Barrow de Neurologia de Phoenix, no Arizona. Ambos acrescentam que, segundo Lamont, uma duradoura fraqueza humana é a que leva as pessoas a crer na veracidade de imposturas e boatos, "a despeito de todas as provas em contrário, inclusive da negação por parte de quem os originou, se as afirmações de veracidade forem repetidas com frequência suficiente". Ou seja: mentira reiterada vira verdade.

Há quem afirme que memória demais pode nos matar. Para o filósofo alemão Gadamer, a mente humana só tem chance de se renovar completamente graças ao esquecimento. A questão é que, arrogantemente tontos, insistimos em adotar a conduta daquela esforçada secretária, de quem o chefe queixava-se por lembrá-lo do que ele queria esquecer e esquecer-se do que ele precisava lembrar.

A História registra o pedido de Cícero ao Senado romano logo após a morte de Júlio César, para que se condenasse a memória das “rixas homicidas” ao esquecimento eterno em nome da paz.  A mesma atitude teria, em 1814, Luís XVIII ao recuperar o trono, decretando que se esquecessem as atrocidades, incluindo o regicídio, cometidas durante a Revolução Francesa.

Abraçamos ilusões e embustes, ruminamos desafetos e desaforos, mas começamos por esquecer que somos preferencialmente imêmores. Esquecemos amigos, sonhos, objetos, promessas, desejos, compromissos, perguntas e respostas. Esquecemos favores, amores e desamores. É possível ficar perdido até na hora de dar o nó da gravata - hábito que se tornara rotina durante boa parte da vida.

São mesmo assim as memórias: como a palha que o vento leva. Ainda que o tempo distorça nossas lembranças, retemos apenas o que o determina nosso coração. “Esqueceram-te os que te amavam, e contigo nem mais se preocupam”, lamentou o profeta Jeremias.

Com um pouco da boa sabedoria (que não costuma transitar pela mídia), saberíamos driblar melhor truques da memória. Identificaríamos, por exemplo, os embustes eleitoreiros, levando-nos a condenar ao esquecimento eterno os atuais políticos.

Razoavelmente sábios o suficiente para entreabrir a espessa venda da ignorância, talvez reconhecêssemos com mais clareza os dons e as graças que abundantemente recebemos em nosso dia a dia.

Sem truques e sem blablabás.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A baleia e o ciclista

(Imagem: Pinterest)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, há 30 anos, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negavam ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.

Três décadas depois, permanece inalterada a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca. Os exemplos são recorrentes, e vão desde profissionais da saúde que negam atendimento em unidades públicas, a policiais que se entrincheiram nos quartéis e delegacias, em protesto contra o não pagamento de seus salários e as péssimas condições de trabalho.

Parece inútil implorar socorro diante de vidas humanas que se esvaem. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os recursos destinados a garantir retorno ao cidadão que paga impostos. Assim como as próprias urgências de bolso, é preciso ainda satisfazer a goela que alardeia o que o caráter do sujeito não o deixará cumprir. Há outras providências a tomar – estas, sim, urgentes. Atendidos os próprios interesses, há que considerar os do partido pelo qual se foi eleito. E há também os companheiros que emprestaram seu apoio, os compromissos confessáveis e inconfessáveis assumidos com o restrito círculo do Poder...

O perigo que nos ameaça não é a baleia azul, mas o oceano de indiferença que escolhemos para navegar em canoa furada. Além de garantir espaço na mídia, dá mais ibope o gato de rua que mobiliza a solidariedade de um prédio inteiro. Assim como a tartaruga maltratada ou o pato atropelado que ganha prótese especial. A era não é só do egoísmo, mas do bicho.

Encarapitar-se na própria soberba ou tangenciar, em despreparo, a sombra do Poder, é tantas vezes suficiente para desprezar o indivíduo e ignorar sua dignidade. A cartilha de quem governa, segundo escreveu certa vez um ex-presidente, é entender povo como massa que se manipula de acordo com os interesses maiores do Estado.

Portanto, pessoa não é gente, é conjunto. É povo. E povo é massa, dócil e crédula.

Invisível como ciclistas no meio do trânsito.

(Repost - Editado)

Rotos e esfarrapados

(Imagem: Lars aspas on... ) Independente de qual seja o desfecho para a crise institucional que vive o país, chama atenção a maneira ...