quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Gambás

(Imagem: Pinterest)

Circula pela internet um vídeo feito em Brasília por um cidadão que, passando pela avenida W3, deu com alguns semáforos em funcionamento intermitente. Nada extraordinário, não fosse o fato de pessoas enfrentarem naquele momento uma surda batalha com os motoristas para conseguirem atravessar a pista onde deveria estar pintada uma faixa de pedestres.
Mas isto não é tudo. A cerca de 30 metros de onde as pessoas corriam riscos no trânsito, encontrava-se estacionada uma viatura do Detran com duas agentes. Uma delas, a que estava ao volante, falava calmamente ao celular. O cidadão que gravou o vídeo aproxima-se do carro e questiona a servidora pública quanto à falta de ação no controle daquela emergência para evitar acidentes. O esforço com que a agente do Detran se empenha para justificar o injustificável chega a ser patético e desanimador para o cidadão contribuinte, que paga os impostos e, por consequência, os salários do funcionalismo público.
Não têm faltado exemplos de como avançar sobre o bolso da sociedade, dando-lhe as costas entre sorrisos de escárnio. Nossas lideranças, eleitas para nos representar, há muito não tem representado senão a si próprias na defesa de interesses nada republicanos.
Donos de sofisticado desempenho na prática de crimes contra a administração pública e o eleitor, chama a atenção a habilidade e alto índice de acerto com que líderes inescrupulosos identificam os auxiliares certos, cercando-se deles para o exercício da gatunagem. Esta, a sabedoria que tem faltado aos cidadãos de bem.
Ou seja, a de identificar e escolher as pessoas certas para fazerem o que é certo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A pimenta e o rabo

(Imagem: Pinterest / Naydine Hartzenberg)


Senhora síndica, boa noite. Desculpe-me por este bilhete sob a porta de seu apartamento, mas trabalho na siderúrgica em horário noturno e quando estou em casa, estou descansando ou tentando descansar. E a senhora está no seu trabalho. Sou o novo morador do 301, e gostaria de saber se é permitido aos moradores do edifício terem animais em seus apartamentos. Nada ou quase nada contra, mas é que no apartamento de cima tem um poodle infernal, que late sem parar o dia inteiro e não me deixa dormir. Obrigado. Josef Leão. 

Senhor Leão, bom dia. Antes de tudo, seja bem-vindo. Nosso condomínio é pequeno, apenas uma dúzia de apartamentos, mas somos compreensivos e tolerantes. Do contrário já teríamos deflagrado a Terceira Guerra Mundial – o senhor não acha? Desculpe a brincadeira e também este bilhete-resposta sob a sua porta. Os animais, particularmente os cães, são nossos companheiros e amigos dedicados. Como o senhor deve saber, a presença deles proporciona ao ser humano benefícios que, em alguns casos, nem a medicina consegue. Por isso a assembleia acaba de decidir pela permissão, a cada morador, de manter um animal de pequeno porte em sua casa. A medida me deixou particularmente feliz, pois sou diretora da Associação Diogo Moedinha de Proteção aos Animais – uma instituição recém-fundada com o apoio de algumas amigas. Atenciosamente, Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. Volto à senhora a respeito do bilhete que deixou há quinze dias sob a porta do meu apartamento. Concordo com o benefício da convivência com animais de estimação, especialmente cães. Eu mesmo tenho dois em minha granja. Sem falar nas cinzas de nossa finada cadelinha Marijuí, guardadas numa pequena urna em lugar de destaque na sala da casa de minha irmã. Porém, senhora síndica, a questão é que nesse período a população canina aqui no prédio parece ter aumentado. Não sei se é verdade o que me informam, de que dos doze apartamentos, pelo menos metade tem seu cãozinho. O fato é que, nos meus períodos de insônia diurna, consigo identificar pelo menos quatro sons de latidos diferentes. Não pretendo, claro, deflagrar a Terceira Guerra Mundial, mas gostaria de contar ao menos com a compreensão e a tolerância que a maioria aqui parece dispensar aos nossos amiguinhos.
A propósito: Diogo Moedinha não é aquele mendigo que vive na rua e faz da praça do chafariz, no centro da cidade, a sua moradia e local de banho de sua dezena de cachorros? Obrigado. Josef Leão. 

Senhor Leão, boa tarde. Primeiro, nosso pesar – em meu nome e também em nome da ADMPA – pela perda de Marijuí. Temos amiguinhos para adoção, caso sua irmã e o senhor se interessem.
De fato o senhor tem razão, Sr. Leão. Nossa primeira campanha, visando o aumento na quantidade de adoções de cães abandonados, tem obtido excelente resposta aqui em nossa comunidade. Mais dois moradores já se comprometeram a também adotarem, cada um, o seu cãozinho.
Os muitos motivos de aborrecimento com nossos semelhantes a cada dia, Sr. Leão, me dão a certeza de que o senhor – que ama os bichos como nós – certamente se beneficiará com o que, a princípio, pode parecer um incômodo, mas que nada mais é senão a manifestação natural de um ser vivo e amigo fiel em sua alegria e liberdade plenas. Confio, portanto, na sua compreensão e no seu bom senso, e sei que o senhor relevará qualquer incômodo passageiro.
Sobre o Diogo Moedinha: é ele mesmo. Quer dizer, era, porque ele amanheceu morto há quase um mês. Seus dezesseis cães rodeavam o corpo, tendo sido difícil para a polícia remover o pobre Diogo da área do chafariz, pois os cachorros não deixavam. Subnutrido e tuberculoso, o Moedinha morreu abandonado e sem qualquer assistência, coitado. O garçom do restaurante em frente declarou ter feito várias tentativas para internar o pobre num hospital, mas ali o Moedinha era visto “só como um morador de rua’’. Então não conseguiu nada.
Sr. Leão, desculpe-me ainda uma vez pela extensão deste bilhete. Não pretendo me alongar mais, e assim que receber da gráfica o folheto institucional de nossa associação, terei prazer em encaminhar-lhe um exemplar. Muito grata. Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. Sou grato pelo folheto que deixou sob a porta de meu apartamento. Li tudo com atenção e fiquei satisfeito em saber que a associação que preside adotou os dezesseis cães do Moedinha – todos em ótimas condições de saúde, bem alimentados e limpos. Muito melhor assistidos do que o falecido dono deles, né? Como, aliás, me pareceram os outros cães hospedados na ADMPA, pelo que pude observar nas fotos que ilustram a peça.
Andei fora nos últimos dias porque decidi descansar um pouco na granja. São quase 70 quilômetros da siderúrgica até lá – 140 quilômetros de estrada diariamente. Mas, apesar do sacrifício, pude desfrutar de mais tranquilidade.
Aproveito para comunicar à senhora que estou trazendo para o apartamento o meu Tóler. Não exatamente para acrescentar-me aos já dez vizinhos solidários com a espécie, mas pela solidão e tristeza do meu cachorro desde que perdeu sua companheira Xereta, na semana passada. Tão logo ele supere essa fase, pretendo levá-lo de volta. Ou, quem sabe, até deixá-lo aqui. Resolverei a seu tempo. Atenciosamente, Josef Leão. 

Senhor Leão, boa noite. Toquei a campainha aqui na sua casa, na esperança de encontrá-lo, mas a faxineira me informou que o senhor tinha acabado de sair para a siderúrgica. A questão é que alguns moradores queixaram-se comigo dos longos e tristes ganidos que seu cachorro emite todas as noites, depois que o senhor sai para o trabalho. São uivos e ululados de dar dó, mas que também não deixam ninguém dormir. Temos que achar uma solução, Sr. Leão. Se precisar, posso indicar-lhe um veterinário que o oriente sobre como lidar com seu cachorro nesse momento difícil. Obrigada. Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. O doutor Paschoal Rebuch Caniballi, veterinário da associação que a senhora preside, é também o profissional que atende o Tóler. Tenho seguido as recomendações dele (que, aliás, viajou ontem em férias para Tóquio). Ambos esperamos que meu cachorro se recupere em uma ou duas semanas. Acho, inclusive, que ele já responde melhor às brincadeiras, além de estar se alimentando quase normalmente. Conto com sua compreensão e com a de todos daqui. Obrigado. Josef Leão. 

Senhor Josef Leão, bom dia. Transcorridos mais de vinte dias desde que o senhor trouxe seu cachorro ‘em crise’ para morar consigo, tenho recebido queixas relacionadas, primeiro aos uivos, depois aos latidos desesperados do Tóler quando o senhor está no trabalho. Um ou dois vizinhos reclamaram também de outros cães no prédio. Sendo assim, tumultuadíssima assembleia extraordinária de moradores decidiu REVOGAR permissão dada anteriormente para que pudéssemos manter um animal de pequeno porte por apartamento. Como o senhor mesmo escreveu, não é nossa intenção deflagrar a Terceira Guerra Mundial. Por isto, a comunidade de moradores deste Edifício Rochinha pede ao senhor a remoção de seu cachorro para outro local o mais breve possível. Solicitação de igual urgência está sendo encaminhada igualmente aos demais moradores que, apesar dos protestos, se comprometeram a atendê-la  sob pena de incorrerem em sanções em caso de não acatamento ao que foi disposto. Atenciosamente. Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. Acato pacifica e prazerosamente a deliberação da assembléia de moradores deste Edifício Rochinha. As providências serão tomadas amanhã mesmo. Cordialmente. Josef Leão.
Em tempo: Tóler e eu agradecemos.

(Repost - Editado) 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Lágrimas

(Imagem: Van Gogh / Pinterest )

Cinco mulheres entram em um vagão do metrô de São Paulo lendo silenciosamente uma carta. Logo deixam as folhas de papel sobre os bancos e, em prantos, saltam na próxima estação. Ao lerem o documento, os curiosos passageiros veriam tratar-se de convite para exposição de artista plástica francesa, realizada durante evento anual de literatura no Brasil.

Apesar de tudo, lágrimas ainda movem e comovem. Mais que expressar emoções, cutucam a miséria de nossa condição humana. Mohamed Said Fellag, escritor, humorista e comediante nascido na Argélia, confessou certa vez chorar sozinho nos bastidores antes de seus espetáculos. E o fazia porque se lembrava das vítimas e amigos mortos em chacinas naquele país africano, então assolado por uma guerra civil. “Dou risadas para não me suicidar”, declarou ele a uma jornalista. O poeta norte-americano Theodore Roethke também denunciou lágrimas e solidão quando disse: “Choro pelo que sou quando estou sozinho”.

Ao ser informada, num leito de hospital, de que o bombeiro que se lançara nas águas de um rio  para salvá-la da morte fora, ele próprio, arrastado pela correnteza, a moradora de rua em São Paulo caiu em prantos. Só conseguiu dizer uma coisa à viúva do soldado, que segurava à sua frente um ramalhete de flores: pediu desculpas.

“Chorar é diminuir a profundidade da dor”, escreveu Shakespeare. A convicção é de que chorar sempre alivia e traz sensação de bem-estar. Mas uma nova visão, a partir de estudo realizado com mais de cinco mil pessoas em 35 países, mostra que quase vinte por cento delas tiveram sensações desagradáveis depois do choro, que as fizeram se sentir pior.

É pouco provável que orgulho ou vaidade leve alguém a choro verdadeiro. Único animal capaz de chorar, o ser humano começa a conviver com as lágrimas a partir dos seis meses de idade, ri em média 90 vezes por dia até os três anos e, na adolescência, tem esse número reduzido à média de vinte manifestações de alegria diárias. Curioso declínio do riso, que com o passar do tempo pode, em muitas ocasiões, ser lido como um choro disfarçado.

Soube dia desses de uma carpideira que trocou o aluguel de suas lágrimas pelo samba, animando eventos no litoral paulista. Na Pensilvânia, Estados Unidos, uma jovem era impedida de chorar por sofrer de urticária aquagênica – rara alergia à água, que causa erupções dolorosas na pele podendo, inclusive, levar à morte.

Dor de viver e conviver – eis o que faz de nós seres atrelados às lágrimas e, por extensão, à misericórdia.

Como dispensadores e, sobretudo, merecedores dela.

(Repost)

domingo, 5 de novembro de 2017

Como disse?

(Imagem: Google)


Nascido por volta do ano de 560 em Sevilha, cidade onde foi bispo por mais de três décadas, Santo Isidoro escreveu Etimologias – obra sobre a linguagem e que retrata o mundo de sua época.

Para Jean Lauand, professor titular na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, na Idade Média o autor costumava analisar a etimologia das principais palavras envolvidas na discussão de uma questão qualquer. Isto, por estar convencido de que a denominação da palavra “podia conter em si informações sobre a própria realidade referida”.

Ainda segundo Lauand, experiências densas que vivemos não possuem brilho duradouro na consciência reflexiva – razão pela qual o próprio Santo Isidoro valia-se de velha constatação dos gregos para lembrar que o homem é um ser que esquece.

Parte dessas experiências, no entanto, vai parar na linguagem. Daí a afirmação do titular da FEUSP de que, não raro, a análise etimológica ajuda a tarefa humana de filosofar. “Ao tratar filosoficamente a gratidão”, ele diz citando apenas um caso, “é importante considerar que quando dizemos ‘obrigado!’ estamos reconhecendo que a gratidão impõe um vínculo, uma obrigação (ob-ligação) de retribuição”.

Não há mais tanta esperança de que protestos e lamentos em defesa da maltratada língua portuguesa – e, de resto, da cultura em geral – possam resultar em providências saneadoras. Parece mais fácil maquiar deficiências, por exemplo, com o argumento de que a língua é dinâmica.

O filósofo e cientista político Leonidas Donskis escreveu que sua experiência com o que chamou ‘inflação de conceitos’ atingiu o auge quando deparou artigos na imprensa americana, descrevendo o ‘holocausto’ de perus às vésperas do feriado de Ação de Graças. Para ele, aquele não era um simples exemplo de uso irresponsável ou impensado de uma palavra, mas desrespeito por conceitos e pela linguagem, que apenas temporariamente encobre ‘o desrespeito pelos outros’.

É o que sugere o caso de quem transfere para seu totó de estimação a condição de filho, neto e até sobrinho. Sempre ficará a suspeita de que o mau uso da palavra para ‘humanizar’ o (ir)racional (= razãofaculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar ideias universais; raciocínio, juízo) nada mais é senão uma aparente e irreversível degradação de valores – fruto do ‘self como umbigo do mundo’ indo desaguar no avassalador desrespeito pelos nossos iguais. 

Rotos e esfarrapados

(Imagem: Lars aspas on... ) Independente de qual seja o desfecho para a crise institucional que vive o país, chama atenção a maneira ...