domingo, 1 de outubro de 2017

Pássaros


(Imagem: Pinterest)


Em céu de entardecer, pássaros seguem rumo ao horizonte voando em formação semelhante a um arco. Apelo irresistível atrai esses migrantes, que partem em busca da sobrevivência tão logo se manifestam os sinais de escassez de alimento e de mudanças no clima. Ainda que correndo riscos extraordinários e despendendo alto custo energético, bandos e manadas se põem a caminho quando é chegado o momento. Não incomodam, não desacatam, não resistem, não agridem. Harmoniosos e obedientes ao instinto, que é a sabedoria dos bichos, batem em retirada sem muitas vezes nos darmos conta de sua ausência.

Mistérios. Desde a antiguidade, o aparecimento e o desaparecimento dos pássaros deixa naturalistas inquietos. Informações na anilha – o anel metálico colocado em indivíduos de várias espécies, com dados que auxiliam no seu rastreamento – já revelaram, por exemplo, que uma batuíra abatida por um caçador em São Paulo saíra de Washington, D.C., distante cerca de 10 mil quilômetros. Falcões peregrinos voaram da Groenlândia à capital paulista, enquanto um filhote de albatroz, anilhado em ilha próxima à Nova Zelândia um mês antes, viria morrer a 6 km ao sul de Tramandaí, no Rio Grande do Sul.

Migrantes rumo à eternidade, nossa peregrinação, ao contrário, não é majestosa como a dos animais terrestres, nem harmoniosa como a dos pássaros. Distraímo-nos pela caminhada, perdemo-nos em conflitos. Em surpreendente compulsão, aceleramos o carro para ver o pedestre que atravessa a rua se assustar e correr. Desprezamos nossos velhos, seguimos aniquilando nosso habitat e abatendo parceiros de migração. Em nome do nosso egoísmo e de nossas ambições, deixamo-nos guiar por uma espécie de instinto primário, bárbaro e individualista.

Se de um lado, para nós, ausência que dói é a que nos deixa incompletos, de outro insistimos na tentativa de preencher o vazio de alguma dor com a largueza de nossas ambições. Tantas vezes inflados pela expansão avassaladora do ego, somos levados a crer que a vida – nossa migração – só vale a pena se chegarmos sempre na frente, vencedores de uma corrida onde ganham os que furam a fila no cinema, os que praticam a rapinagem com o dinheiro público, os que manipulam covardemente a boa fé de seus iguais. Por isso não há tempo a perder com gente-obstáculo. Solidariedade, só negociada.

Pobres de nós, solitários migrantes para quem o nomadismo – já se disse – é o outro nome da liberdade. Ruidosos e desengonçados, vamos em frente agitando asas feitas de ilusão. Queremos descobrir, como na letra da canção, onde os ventos morrem e para onde vão as estórias. Mais que isto, nossa meta está mais além: fincar no infinito a nossa bandeira transformando-nos, se possível, em donos da História.

Pássaros migrantes, apesar de tudo, deixam-nos a impressão de que a natureza os privilegiou com sabedoria e simplicidade. Um terço de todas as espécies catalogadas bate em retirada a cada ano e, destes, metade morre ou permanece no exílio, enquanto a outra metade retorna ao local de origem. Missão cumprida, a vida se renova.

Quanto a sonhos, também eles os tem, encantadoramente singelos. Segundo publicou a revista Science, pesquisadores de Chicago concluíram, após estudos realizados com determinada espécie, que os pássaros sonham com seus cantos.

(Repost - Original em 11/09/2008)

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Leitura que preenche nossos devaneios como representantes dos humanos... arqueados, desfocados e com "as asas" sem o impulso de altos voos... Chega-se a um tempo de no máximo, voos rasantes e sem maiores perspectivas... Carpe diem!
Abraço.

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