quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Despertar necessário

(Imagem: Pinterest

Inicio o aplicativo de músicas pela internet e sou logo advertido de que, para não ter a audição interrompida por inserções publicitárias, terei que pagar por uma assinatura. O mesmo acontece com o noticiário eletrônico de jornais e revistas que, mesmo disponibilizando conteúdo na rede mundial de computadores, barram meu acesso à informação se eu não for um assinante.

Vou à tevê em busca de informação e lazer com um nível aceitável de qualidade, mas para isso também terei que pagar. Caso contrário, ficarei confinado à mediocridade do conteúdo disponível nos canais abertos.

Nada contra pagar pela qualidade. A questão é quando parece não haver limites para a deterioração do que é gratuito. E isto em país onde Educação é bandeira que não se desfralda. Por aqui, promessas com esse objetivo não costumam ir muito além de slogans e discursos.

A época é a de que tudo se vende. Da vaguinha para estacionamento na via pública à confiança do eleitor. Do voto obrigatório à receita completa de qualquer iguaria mostrada na tevê. De graça, nem injeção na testa. Só conselho – e olhe lá. Sempre se correrá o risco de dar de frente com um número de conta bancária, antes da possibilidade de se sentir aliviado.

Possivelmente já trouxemos conosco reserva maior de confiança e esperança no futuro – nós, os peregrinos dessa gigantesca feira livre chamada Brasil, onde negócio e negociata alimentam bancas e bandos visíveis e invisíveis.

Enquanto a prioridade do discurso for a realidade que se materializa no bolso do cidadão como inconfessada meta preferencial, a última palavra – the famous last word – continuará à disposição do sonolento eleitor.

Urge acordá-lo.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mundinho


(Imagem: Pixabay)

Vista do alto quando na sombra da noite, a Terra é pontilhada de luzes. São como pegadas humanas na escuridão, lanternas voltadas ao infinito à procura de respostas que acalmem nossa inquietação com marcas profundas da pegada antrópica, que o dia revela.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas dedicou-se a discussões sobre a população mundial, com ênfase na influência do futuro demográfico e suas consequências. Foram necessários 200 mil anos para que chegássemos a 1 bilhão de habitantes no planeta, mas levamos apenas 14 anos para saltarmos de 3 para 4 bilhões; 13 anos para 5 bilhões; 12 anos para 6 bilhões, e o mesmo tempo para crescermos em mais 1 bilhão.

A ONU considera que um crescimento populacional em taxa média faça com que desembarquemos em 2100 com 11 bilhões de habitantes. Na melhor hipótese, chegaremos lá com menos de 7 bilhões – número próximo do atual, que já impulsiona nossa pegada para 64% além da biocapacidade do planeta.

Cidadão do futuro e adaptando gente e Terra à dimensão de seus cinco anos, Gabriel ditou ao pai suas impressões ante um desenho infantil do planeta. Para ele, que iniciou seu depoimento com um compenetrado “era uma vez”, o mundinho era muito feliz, colorido e respeitado pelos homenzinhos. Nele tinha árvores, grama, flores, gaivotas e terra. Era também cheio de pessoas que gostavam de brincar e que não precisavam ter medo do mundinho, porque ele era só um planeta e protegia a todos.

De Gabriel a um registro histórico: há 150 anos, quando remexia os escombros de Canudos, o médico das tropas invasoras, João Condé, deu com um volume encadernado de 628 páginas. Na última página de Prédicas, seu autor, Antônio Conselheiro, previa sua morte próxima: "Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós".

Espremidos entre um adeus em passado que se insinua futuro, e um futuro com sombras de desesperança, seguimos tentando preservar nossa teima, nossa arrogância e nosso individualismo suicida. Sem consciência das urgências ambientais, aliadas a políticas de resultados, talvez nos reste a misericórdia de Deus. De Quem, aliás, nossos representantes e líderes parecem não desejar tanta aproximação assim, haja vista a lembrança urgente da laicidade do Estado, verberada em discursos exaltados, ante a recente polêmica sobre o ensino religioso nas escolas públicas.

Pode ser que Gabriel ainda persista por algum tempo imaginando um mundo de pessoas que gostam de brincar em um planeta que protege a todos. Parece certo, no entanto, que os sonhos do futuro não despertam em nós mais que um sorriso breve com traços de compaixão. Ébrios de própria estupidez, por enquanto o que temos feito melhor é dar de ombros, remetendo aos que vem chegando a conta a ser paga por nossos crimes ambientais.

domingo, 1 de outubro de 2017

Pássaros


(Imagem: Pinterest)


Em céu de entardecer, pássaros seguem rumo ao horizonte voando em formação semelhante a um arco. Apelo irresistível atrai esses migrantes, que partem em busca da sobrevivência tão logo se manifestam os sinais de escassez de alimento e de mudanças no clima. Ainda que correndo riscos extraordinários e despendendo alto custo energético, bandos e manadas se põem a caminho quando é chegado o momento. Não incomodam, não desacatam, não resistem, não agridem. Harmoniosos e obedientes ao instinto, que é a sabedoria dos bichos, batem em retirada sem muitas vezes nos darmos conta de sua ausência.

Mistérios. Desde a antiguidade, o aparecimento e o desaparecimento dos pássaros deixa naturalistas inquietos. Informações na anilha – o anel metálico colocado em indivíduos de várias espécies, com dados que auxiliam no seu rastreamento – já revelaram, por exemplo, que uma batuíra abatida por um caçador em São Paulo saíra de Washington, D.C., distante cerca de 10 mil quilômetros. Falcões peregrinos voaram da Groenlândia à capital paulista, enquanto um filhote de albatroz, anilhado em ilha próxima à Nova Zelândia um mês antes, viria morrer a 6 km ao sul de Tramandaí, no Rio Grande do Sul.

Migrantes rumo à eternidade, nossa peregrinação, ao contrário, não é majestosa como a dos animais terrestres, nem harmoniosa como a dos pássaros. Distraímo-nos pela caminhada, perdemo-nos em conflitos. Em surpreendente compulsão, aceleramos o carro para ver o pedestre que atravessa a rua se assustar e correr. Desprezamos nossos velhos, seguimos aniquilando nosso habitat e abatendo parceiros de migração. Em nome do nosso egoísmo e de nossas ambições, deixamo-nos guiar por uma espécie de instinto primário, bárbaro e individualista.

Se de um lado, para nós, ausência que dói é a que nos deixa incompletos, de outro insistimos na tentativa de preencher o vazio de alguma dor com a largueza de nossas ambições. Tantas vezes inflados pela expansão avassaladora do ego, somos levados a crer que a vida – nossa migração – só vale a pena se chegarmos sempre na frente, vencedores de uma corrida onde ganham os que furam a fila no cinema, os que praticam a rapinagem com o dinheiro público, os que manipulam covardemente a boa fé de seus iguais. Por isso não há tempo a perder com gente-obstáculo. Solidariedade, só negociada.

Pobres de nós, solitários migrantes para quem o nomadismo – já se disse – é o outro nome da liberdade. Ruidosos e desengonçados, vamos em frente agitando asas feitas de ilusão. Queremos descobrir, como na letra da canção, onde os ventos morrem e para onde vão as estórias. Mais que isto, nossa meta está mais além: fincar no infinito a nossa bandeira transformando-nos, se possível, em donos da História.

Pássaros migrantes, apesar de tudo, deixam-nos a impressão de que a natureza os privilegiou com sabedoria e simplicidade. Um terço de todas as espécies catalogadas bate em retirada a cada ano e, destes, metade morre ou permanece no exílio, enquanto a outra metade retorna ao local de origem. Missão cumprida, a vida se renova.

Quanto a sonhos, também eles os tem, encantadoramente singelos. Segundo publicou a revista Science, pesquisadores de Chicago concluíram, após estudos realizados com determinada espécie, que os pássaros sonham com seus cantos.

(Repost - Original em 11/09/2008)

Amanhecer

(Imagem: Pinterest ) Poeta e contista brasileiro, Pedro du Bois é autor de poema intitulado 'Amanhecer', no qual fustiga a inqu...