domingo, 24 de setembro de 2017

Exterminadores

(Imagem: Pinterest)

Já publiquei aqui sobre a besta que mal acalentamos em nós. Volto ao tema, depois de assistir alguns minutos de um documentário a respeito do considerado primeiro genocídio do século XX. O fato aconteceu entre 1904 e 1907 e dizimou mais da metade da população herero e namaqua onde hoje é a Namíbia, na África Oriental. Ironicamente, o berço da Humanidade.

As cenas são úteis para relembrar que somos ferozes. E que, se por um lado, manter viva essa consciência pode nos ajudar a dominar o ímpeto devastador que trazemos conosco, por outro o esquecimento das barbaridades que praticamos abranda e quase afaga aquela consciência inquieta, tornando-a letárgica e auto-absolvedora.

Perpetrado por colonizadores alemães e ingleses, o mais prolongado genocídio, segundo o etnólogo norte-americano Ward Churchill, seguiu provavelmente modelo da matança indígena nos Estados Unidos da América, que atravessou todo o século anterior e só chegaria ao fim com o reconhecimento da cidadania dos índios, em 1925. Após três séculos de guerras, a população indígena daquele país, antes estimada em 25 milhões de pessoas, acabaria reduzida a cerca de 2 milhões.

É claro, a História registraria outras barbaridades. Como o genocídio de milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Denominações e formas diferentes, no entanto, atualmente encobrem extermínios em consequência, por exemplo, da miséria, da ideologia e até da má educação no trânsito. O fio comum que os une parece não ser outro senão a ambição humana que, livre, leve e solta, insiste em cutucar a besta feroz, arrogante, individualista e infiel. Pelo menos enquanto o cabo do chicote não muda de mãos. Indefesa, num leito ou em maca no corredor de um hospital, a ferocidade não raro se desmancha em lágrimas e súplicas. Algumas vezes o sofrimento regenera a besta, que em outras oportunidades, no entanto, sai fortalecida.

Alguém poderá dizer que não se exterminam vidas hoje como no passado. Talvez. Mas a maior diferença pode estar no fato de que, negando oportunidades, cultuando o individualismo e devastando o meio ambiente, nos tornamos exterminadores sofisticados e criativos.

Exterminamos sonhos.

(Repost - Editado)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Escassa vergonha

(Imagem: Pinterest)

Quais vozes de grande alcance falam hoje, no Brasil, o que a sociedade quer escutar?

A resposta é nenhuma. Pobres no conteúdo e tremulantes na gramática, os discursos, além de enfadonhos, provavelmente manterão no caminho entre o desalento e o desespero quem lhes dê atenção.

"O Relator já fez a concessão da aposentadoria aos 55 anos para ser aprovada a reforma – falava-se em 60 anos – e não passou. O Governo não está conduzindo como deveria. O Congresso não está se comportando como deveria".

Estas afirmações – atualíssimas – foram feitas pelo então senador Pedro Simon, em aparte do colega Jefferson Peres, em sessão do Senado realizada em Maio de 1996. Na ocasião, era discutida a reforma da Previdência que, anunciava-se, estava "quebrada". – "Nessa questão, é possível se oferecerem alternativas racionais para a Previdência. Temos que dar condições para que essa Previdência possa funcionar", enfatizava o senador gaúcho.

Refém de anunciado furacão de verdades, logo transformado em tempestade tropical de dúvidas, a sociedade continua vendo de pé torres de marfim, enquanto se debate para não submergir em meio à pulverização de culpas.

Bem próximas da oratória oficial, as entrevistas coletivas, habitualmente reduzidas a pouco mais que um pronunciamento do entrevistado ou a leitura de uma nota oficial, mais expõem a manipulação daqueles e a deficiência de entrevistadores, do que a informação pela qual se espera. Raros entrevistados se permitem ir ao limite dos questionamentos razoáveis.

A condenação do país a ver e rever a projeção de um velho filme lembra o sentimento de Roberto Campos em 1999, quando se despedia da atividade legislativa. Naquela oportunidade, o então senador confessou-se melancólico – não por afastar-se de Brasília, que definiu “um bazar de ilusões e uma usina de déficits”. Seu desalento seria atribuído ao “fracasso” de sua geração “em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado”.

O Brasil mudou, mas o bazar de ilusões e a usina de déficits permanecem gerando pesadas contas que todos pagamos. A insistência num discurso com viés eleitoreiro, tatibitate, que usa reformas que nunca serão feitas como bandeira de coisa alguma evidencia que não faltam apenas verdade e compromisso nos discursos políticos.

Falta vergonha.

Amanhecer

(Imagem: Pinterest ) Poeta e contista brasileiro, Pedro du Bois é autor de poema intitulado 'Amanhecer', no qual fustiga a inqu...