sexta-feira, 28 de julho de 2017

Velhos amigos

(Imagem: Pinterest)


Encontraram-se no ônibus.

- É, esfriou de novo. Mas vai fazer calor – disse o que usava um gasto chapéu cinza. O outro fez que não ouviu.

- É a formiga que está dizendo: vai esquentar e vai chover... – insistiu.  O companheiro de viagem aceitou a provocação:

- É isso: formiga, quando começa a carregar folha, pode saber que vai chover.

Pronto. A faísca de conversa já se transformara em chama. O de chapéu acomodou-se no assento, pôs no chão entre as pernas uma sacola cheia de misterioso conteúdo envolvido em folhas de jornal, e cruzou os braços:

- Num é? Lá na minha terra a gente aprende essas coisas desde criança. O senhor é de onde? – perguntou cutucando o outro de leve com o cotovelo.

- De Bom Jardim.

- Gente... De Bom Jardim? Eu também, uai! Não me diga que é gente dos Gouvêa...

O companheiro pigarreou meio sem jeito, coçou a cabeça e respondeu que não. E voltou às formigas:

- Quando eu era criança, tinha um jardineiro que ia à casa da minha tia. Ele dizia que formigueiro é universidade, de tanta sabedoria.

O de chapéu abriu sorriso largo e, empolgado, deu um tapinha na perna do outro:

- Por acaso o nome desse jardineiro era seu Telêmaco?

- Não, era Barbosa. Seu Barbosa.

- Pois é... – e lá se foi outra cutucada. – Telêmaco Ruilando Barbosa. Era meu tio.

-Hum... Sei não. Pra todo mundo era seu Barbosa. Tinha uma bicicleta vermelha...

O sobrinho do jardineiro fez um gesto de desdém:

- Ah, mas essa era mais nova. Toda a vida ele andou numa Rabeneick verde.

Sem argumentos e ânimo para prosseguir, o outro se calou. O de chapéu tentava retomar a conversa a qualquer custo. Até que falou que o tio Telê era casado com dona Frasinha – “um doce de pessoa”. Foi aí que o companheiro acordou:

- Dona Frasinha? Eufrásia dos Mamão?

- É... Conheceu ela?

- Era madrinha da minha irmã.

Após um instante de silêncio, o do chapéu arriscou:

- Não me diga que sua irmã era a...

- Leninha.

- Isso, a Leninha. Amiga da Claudete, né?

- É.

O do chapéu ia dando outro tapinha na perna do irmão da Leninha que, esperto, fingiu ajeitar-se no banco para livrar-se de mais uma cutucada, que desta vez ficou no ar.

- Não é possível que então você seja o Vandavel... – quis saber o do chapéu.

- Sou o irmão dele, o Vandeval.

- Ô, Ventinho, nem te reconheci!

Vandeval não gostou de ter o apelido lembrado. Ia perguntar o nome do de chapéu, mas ele se antecipou:

- Lembra de mim, não? Sou o Kleber...

- Kleber... Kleber... - Vandeval se esforçou.

- Brito. Kleber Brito, lembra não?
Vandeval então se sentiu vingado ao recordar um anel usado pelo amigo de infância com a gravação "K. Brito".

- Ô, Cabritin, nem lembrava mais...

Mais que a nostalgia, foi a curiosidade recíproca que empurrava a prosa. Até que Cabritin falou de amor antigo, desses que ninguém esquece, apesar do tempo.

- Nunca mais vi a Claudete, Ventinho. Mas se encontrasse a danada hoje, ainda era capaz de fazer uma besteira...

O outro sorriu enigmático, enquanto acionava o sinal de parada. Antes de deixar o ônibus, disse que se lembrava da amiga da Leninha, pois se casara com ela.

Lá longe, um trovão anunciou chuva a caminho.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mãos, chapéu e pires


(Imagem: Google Images)

Crowdfunding.

Andreia acenou a palavra lá do outro lado do oceano. Trata-se de operação destinada a obter recursos para iniciativas de amplo interesse. A fonte, em geral, são pessoas físicas interessadas no objetivo final proposto. Resumindo, é um financiamento coletivo.

“Financiamento” é palavra de brilho ainda sedutor, embora possa sugerir cautela, desconfiança. Em muitos casos é armadilha. Já “interesse” é locomotiva de força descomunal, que se debilita quando atrelada a “coletivo”. A composição assim rasteja, desvia-se com facilidade do caminho original, para enveredar-se num cipoal indevassável de argumentos, evasivas e ... outros interesses.

Vestido com tão bem talhado traje, o tal financiamento coletivo assume alto posto, muito distante das mãos aflitas que clamam por seu socorro. Venal e insensível, o crowdfunding vez ou outra concede o beneplácito de sua atenção a quem lhe é recomendadíssimo. Ou consegue tocar-lhe o inalcançável bolso – proeza que só poucos e hábeis falantes conseguem cumprir.

É certo que mãos aflitas não nos faltam, sobretudo num Brasil de mãos agilíssimas e impunes de um lado, e cada vez mais violentas de outro. Da planície, tantas acenam para um crowdfunding tutelado reverentemente por mãos que escolhem e afastam, que acumulam e despedem.

Muitas dessas mãos estendidas são as da Cultura, em suas mais diversas manifestações, na arte ou no esporte: pintores, músicos, escritores, atores, compositores, coreógrafos, bailarinos, atletas... Para a maioria dessa gente, o crowdfunding é quase uma ficção.

O ex-piloto japonês de Fórmula 1, Kamui Kobayashi, só pôde correr pela Caterham em 2014 porque arrecadou, em doações dos fãs em apenas um ano, o então equivalente a quase 6,5 milhões de reais através de uma seção criada em seu site pessoal. Tanta generosidade em tão pouco tempo, entre nós, só é possível a determinadas figuras notórias, condenadas em última instância pela Justiça e mais ou menos mantidas ainda atrás das grades.

Quem cria, se esforça e produz arte no Brasil está fadado à mendicância, a conviver com um pires em uma mão e o chapéu na outra. Incentivos a partir de recursos públicos, na realidade, costumam ser mais eficazes como bandeiras políticas que distribuem migalhas, para cobrar retribuição em apoios e votos.

Minha leitora d’além mar é, assim, valorosa e otimista combatente nesse mundo das letras. Não só porque parece olhar com interesse para o crowdfunding, mas também porque distribui sua arte em papéis dobrados e aparentemente perdidos em locais públicos, atraindo dessa forma a curiosidade do leitor.

Independente de quanta seja a reserva de esperança no crowdfunding para montar e levar a público um bom espetáculo ou publicar e comercializar um livro, por exemplo, é útil ao esperançoso ter livre uma das mãos para acenar pedindo ajuda, sem deixar de levar um pires na outra.

E, compondo digna e prudentemente a figura, ter um chapéu na cabeça.


(Repost - Editado)