domingo, 31 de dezembro de 2017

Desejos


(Imagem: Pinterest)

Menos massacre por parte da mídia, mais respeito à inteligência do telespectador. No ano novo, merecemos a qualidade que os meios de comunicação social nos devem.

Sendo inevitável conviver com a mentira, possa a sabedoria ajudar-nos a identificar os mentirosos, desviando-nos de seus caminhos. A começar pelos políticos, a serem fiscalizados, cobrados e denunciados com a mesma devoção com que fraudam e mentem.

Menos sofreguidão dos ricos para enriquecerem mais, compensada por momentos de reflexão sobre o peso que sua ambição representa na vida de uma multidão incontável de pobres e miseráveis. A severidade na cobrança será tão certa quanto sua ilimitada ganância.

Menos a culpa é deles e mais vamos fazer a nossa parte, como resposta à urgência na preservação do meio ambiente, em reação à estonteante estupidez a que, comodamente, nos atrelamos.

Menos discurseira inútil visando o lucro e a urna em torno de temas como racismo, diversidade de gêneros e empoderamento feminino. E mais atitude e respeito em defesa de todos – maiorias e minorias.

Mais acolhimento e valorização à experiência dos idosos; mais cuidado e dedicação à educação dos jovens; mais compaixão e ternura com as crianças. Elas herdarão o ônus de um futuro sombrio, graças à irresponsabilidade do nosso egoísmo.

Mais olho-no-olho e menos olho-no-próprio-umbigo, com polegares digitando compulsivamente rios de bobagens lançadas em profusão nas redes sociais.

Menos violência em relação às pessoas e – por que não? – à pobre Língua Portuguesa, desfigurada e trôpega diante de tantos maus tratos.

Menos arrogância, mais simplicidade e mais verdade.

Começando já, e estendendo-se por todo o ano de 2018 e seguintes.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Ruínas

(Imagem: Pinterest)

Lá se vai a casa, demolida para cumprir ordem urgente dos tempos que, indiferentes ao bem-estar dos viajantes, abalam a nave dos costumes, arrastando consigo pessoas, casas e cidades. Em algum lugar, que fingimos infantilmente distante, tentamos abandonar um passado com cara de vergonha e inutilidade.
Pois lá se vai a casa de histórias surpreendentes, de risos e de sonhos. O teto que agora é demolido encobriu momentos de dor, descobertas, encontros e desencontros. Entre as paredes cinzentas elevaram-se preces aflitas para confortar e agradecer. Olhos sorridentes nas chegadas cerraram-se em lágrimas nas partidas, recolhidas ao silêncio dos corações.
A pressa que devotamos à tecnologia, reverentes aos apelos sedutores do mercado, ameaça fazer de nós seres ansiosos em virar páginas de nossa história. Queremos saltar etapas, deixando para trás sonhos antigos, amores eternos, mãos estendidas, amizades para toda a vida. Para frente é que se anda!
Talvez ainda seja possível crer que paredes que tombam numa nuvem de pó e de lembranças não levem junto histórias de vida. Histórias que o passado cuidadosamente atou ao alicerce de valores impiedosamente devastados.
Bastará, para isso, um fiozinho que seja de humana generosidade.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

De novo, a Esperança...

(Imagem: Pinterest)



Renova-se o tempo em que, pelas luzes natalinas, recorremos com habitual sofreguidão a palavras como paz e esperança.
É certo que já desejamos as luzes do Natal em clima de mais encanto e verdade. E elas chegavam de mansinho, amanheciam lentamente no coração da gente. Traziam com elas sons de música suave e de vozes em coro, anunciando um Natal com cheiro do pinheirinho ‘plantado’ em lata com areia e enfeitado com o brilho incomparável das bolas de vidro finíssimo.
O presépio de outros natais falava de fé e humildade aos corações. Era ele que, nos grandes e coloridos cartões que auxiliavam na preparação do Advento, se revelava por último ao se abrirem as portas de uma casa enfeitada e de muitas janelas, abertas uma por dia até o dia 24 de dezembro. Atrás de cada janelinha escondiam-se pequenas figuras como a de uma caixa enfeitada com laço, uma borboleta ou um passarinho.
Naqueles natais exercitava-se a esperança, mesmo sem a exata noção de que o humano e pífio esforço para ser melhor poderia desmoronar mais adiante. E quando isso acontecia, o Espírito do Natal recompunha as coisas em seus devidos lugares, tratando de assegurar paz, alegrias e renovando... a Esperança. Esperança boa, que dá vida curta aos desencantos e os faz breves como os da infância.
Às vésperas de celebrarmos mais uma vez o mistério do Natal, é essa esperança, que se revigora na humildade e na gratidão, que precisamos fortalecer. Hoje talvez mais que nunca, tantos e tão devastadores os desencantos e a desagregação que se alimentam da farsa e da mentira.
Ao invés de Black Fridays, tenhamos todos mais luminosos e iluminados dias.
Repletos de verdadeira esperança e duradoura paz.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Gambás

(Imagem: Pinterest)

Circula pela internet um vídeo feito em Brasília por um cidadão que, passando pela avenida W3, deu com alguns semáforos em funcionamento intermitente. Nada extraordinário, não fosse o fato de pessoas enfrentarem naquele momento uma surda batalha com os motoristas para conseguirem atravessar a pista onde deveria estar pintada uma faixa de pedestres.
Mas isto não é tudo. A cerca de 30 metros de onde as pessoas corriam riscos no trânsito, encontrava-se estacionada uma viatura do Detran com duas agentes. Uma delas, a que estava ao volante, falava calmamente ao celular. O cidadão que gravou o vídeo aproxima-se do carro e questiona a servidora pública quanto à falta de ação no controle daquela emergência para evitar acidentes. O esforço com que a agente do Detran se empenha para justificar o injustificável chega a ser patético e desanimador para o cidadão contribuinte, que paga os impostos e, por consequência, os salários do funcionalismo público.
Não têm faltado exemplos de como avançar sobre o bolso da sociedade, dando-lhe as costas entre sorrisos de escárnio. Nossas lideranças, eleitas para nos representar, há muito não tem representado senão a si próprias na defesa de interesses nada republicanos.
Donos de sofisticado desempenho na prática de crimes contra a administração pública e o eleitor, chama a atenção a habilidade e alto índice de acerto com que líderes inescrupulosos identificam os auxiliares certos, cercando-se deles para o exercício da gatunagem. Esta, a sabedoria que tem faltado aos cidadãos de bem.
Ou seja, a de identificar e escolher as pessoas certas para fazerem o que é certo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A pimenta e o rabo

(Imagem: Pinterest / Naydine Hartzenberg)


Senhora síndica, boa noite. Desculpe-me por este bilhete sob a porta de seu apartamento, mas trabalho na siderúrgica em horário noturno e quando estou em casa, estou descansando ou tentando descansar. E a senhora está no seu trabalho. Sou o novo morador do 301, e gostaria de saber se é permitido aos moradores do edifício terem animais em seus apartamentos. Nada ou quase nada contra, mas é que no apartamento de cima tem um poodle infernal, que late sem parar o dia inteiro e não me deixa dormir. Obrigado. Josef Leão. 

Senhor Leão, bom dia. Antes de tudo, seja bem-vindo. Nosso condomínio é pequeno, apenas uma dúzia de apartamentos, mas somos compreensivos e tolerantes. Do contrário já teríamos deflagrado a Terceira Guerra Mundial – o senhor não acha? Desculpe a brincadeira e também este bilhete-resposta sob a sua porta. Os animais, particularmente os cães, são nossos companheiros e amigos dedicados. Como o senhor deve saber, a presença deles proporciona ao ser humano benefícios que, em alguns casos, nem a medicina consegue. Por isso a assembleia acaba de decidir pela permissão, a cada morador, de manter um animal de pequeno porte em sua casa. A medida me deixou particularmente feliz, pois sou diretora da Associação Diogo Moedinha de Proteção aos Animais – uma instituição recém-fundada com o apoio de algumas amigas. Atenciosamente, Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. Volto à senhora a respeito do bilhete que deixou há quinze dias sob a porta do meu apartamento. Concordo com o benefício da convivência com animais de estimação, especialmente cães. Eu mesmo tenho dois em minha granja. Sem falar nas cinzas de nossa finada cadelinha Marijuí, guardadas numa pequena urna em lugar de destaque na sala da casa de minha irmã. Porém, senhora síndica, a questão é que nesse período a população canina aqui no prédio parece ter aumentado. Não sei se é verdade o que me informam, de que dos doze apartamentos, pelo menos metade tem seu cãozinho. O fato é que, nos meus períodos de insônia diurna, consigo identificar pelo menos quatro sons de latidos diferentes. Não pretendo, claro, deflagrar a Terceira Guerra Mundial, mas gostaria de contar ao menos com a compreensão e a tolerância que a maioria aqui parece dispensar aos nossos amiguinhos.
A propósito: Diogo Moedinha não é aquele mendigo que vive na rua e faz da praça do chafariz, no centro da cidade, a sua moradia e local de banho de sua dezena de cachorros? Obrigado. Josef Leão. 

Senhor Leão, boa tarde. Primeiro, nosso pesar – em meu nome e também em nome da ADMPA – pela perda de Marijuí. Temos amiguinhos para adoção, caso sua irmã e o senhor se interessem.
De fato o senhor tem razão, Sr. Leão. Nossa primeira campanha, visando o aumento na quantidade de adoções de cães abandonados, tem obtido excelente resposta aqui em nossa comunidade. Mais dois moradores já se comprometeram a também adotarem, cada um, o seu cãozinho.
Os muitos motivos de aborrecimento com nossos semelhantes a cada dia, Sr. Leão, me dão a certeza de que o senhor – que ama os bichos como nós – certamente se beneficiará com o que, a princípio, pode parecer um incômodo, mas que nada mais é senão a manifestação natural de um ser vivo e amigo fiel em sua alegria e liberdade plenas. Confio, portanto, na sua compreensão e no seu bom senso, e sei que o senhor relevará qualquer incômodo passageiro.
Sobre o Diogo Moedinha: é ele mesmo. Quer dizer, era, porque ele amanheceu morto há quase um mês. Seus dezesseis cães rodeavam o corpo, tendo sido difícil para a polícia remover o pobre Diogo da área do chafariz, pois os cachorros não deixavam. Subnutrido e tuberculoso, o Moedinha morreu abandonado e sem qualquer assistência, coitado. O garçom do restaurante em frente declarou ter feito várias tentativas para internar o pobre num hospital, mas ali o Moedinha era visto “só como um morador de rua’’. Então não conseguiu nada.
Sr. Leão, desculpe-me ainda uma vez pela extensão deste bilhete. Não pretendo me alongar mais, e assim que receber da gráfica o folheto institucional de nossa associação, terei prazer em encaminhar-lhe um exemplar. Muito grata. Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. Sou grato pelo folheto que deixou sob a porta de meu apartamento. Li tudo com atenção e fiquei satisfeito em saber que a associação que preside adotou os dezesseis cães do Moedinha – todos em ótimas condições de saúde, bem alimentados e limpos. Muito melhor assistidos do que o falecido dono deles, né? Como, aliás, me pareceram os outros cães hospedados na ADMPA, pelo que pude observar nas fotos que ilustram a peça.
Andei fora nos últimos dias porque decidi descansar um pouco na granja. São quase 70 quilômetros da siderúrgica até lá – 140 quilômetros de estrada diariamente. Mas, apesar do sacrifício, pude desfrutar de mais tranquilidade.
Aproveito para comunicar à senhora que estou trazendo para o apartamento o meu Tóler. Não exatamente para acrescentar-me aos já dez vizinhos solidários com a espécie, mas pela solidão e tristeza do meu cachorro desde que perdeu sua companheira Xereta, na semana passada. Tão logo ele supere essa fase, pretendo levá-lo de volta. Ou, quem sabe, até deixá-lo aqui. Resolverei a seu tempo. Atenciosamente, Josef Leão. 

Senhor Leão, boa noite. Toquei a campainha aqui na sua casa, na esperança de encontrá-lo, mas a faxineira me informou que o senhor tinha acabado de sair para a siderúrgica. A questão é que alguns moradores queixaram-se comigo dos longos e tristes ganidos que seu cachorro emite todas as noites, depois que o senhor sai para o trabalho. São uivos e ululados de dar dó, mas que também não deixam ninguém dormir. Temos que achar uma solução, Sr. Leão. Se precisar, posso indicar-lhe um veterinário que o oriente sobre como lidar com seu cachorro nesse momento difícil. Obrigada. Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. O doutor Paschoal Rebuch Caniballi, veterinário da associação que a senhora preside, é também o profissional que atende o Tóler. Tenho seguido as recomendações dele (que, aliás, viajou ontem em férias para Tóquio). Ambos esperamos que meu cachorro se recupere em uma ou duas semanas. Acho, inclusive, que ele já responde melhor às brincadeiras, além de estar se alimentando quase normalmente. Conto com sua compreensão e com a de todos daqui. Obrigado. Josef Leão. 

Senhor Josef Leão, bom dia. Transcorridos mais de vinte dias desde que o senhor trouxe seu cachorro ‘em crise’ para morar consigo, tenho recebido queixas relacionadas, primeiro aos uivos, depois aos latidos desesperados do Tóler quando o senhor está no trabalho. Um ou dois vizinhos reclamaram também de outros cães no prédio. Sendo assim, tumultuadíssima assembleia extraordinária de moradores decidiu REVOGAR permissão dada anteriormente para que pudéssemos manter um animal de pequeno porte por apartamento. Como o senhor mesmo escreveu, não é nossa intenção deflagrar a Terceira Guerra Mundial. Por isto, a comunidade de moradores deste Edifício Rochinha pede ao senhor a remoção de seu cachorro para outro local o mais breve possível. Solicitação de igual urgência está sendo encaminhada igualmente aos demais moradores que, apesar dos protestos, se comprometeram a atendê-la  sob pena de incorrerem em sanções em caso de não acatamento ao que foi disposto. Atenciosamente. Elvyran Coelho – Síndica. 

Senhora síndica, boa noite. Acato pacifica e prazerosamente a deliberação da assembléia de moradores deste Edifício Rochinha. As providências serão tomadas amanhã mesmo. Cordialmente. Josef Leão.
Em tempo: Tóler e eu agradecemos.

(Repost - Editado) 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Lágrimas

(Imagem: Van Gogh / Pinterest )

Cinco mulheres entram em um vagão do metrô de São Paulo lendo silenciosamente uma carta. Logo deixam as folhas de papel sobre os bancos e, em prantos, saltam na próxima estação. Ao lerem o documento, os curiosos passageiros veriam tratar-se de convite para exposição de artista plástica francesa, realizada durante evento anual de literatura no Brasil.

Apesar de tudo, lágrimas ainda movem e comovem. Mais que expressar emoções, cutucam a miséria de nossa condição humana. Mohamed Said Fellag, escritor, humorista e comediante nascido na Argélia, confessou certa vez chorar sozinho nos bastidores antes de seus espetáculos. E o fazia porque se lembrava das vítimas e amigos mortos em chacinas naquele país africano, então assolado por uma guerra civil. “Dou risadas para não me suicidar”, declarou ele a uma jornalista. O poeta norte-americano Theodore Roethke também denunciou lágrimas e solidão quando disse: “Choro pelo que sou quando estou sozinho”.

Ao ser informada, num leito de hospital, de que o bombeiro que se lançara nas águas de um rio  para salvá-la da morte fora, ele próprio, arrastado pela correnteza, a moradora de rua em São Paulo caiu em prantos. Só conseguiu dizer uma coisa à viúva do soldado, que segurava à sua frente um ramalhete de flores: pediu desculpas.

“Chorar é diminuir a profundidade da dor”, escreveu Shakespeare. A convicção é de que chorar sempre alivia e traz sensação de bem-estar. Mas uma nova visão, a partir de estudo realizado com mais de cinco mil pessoas em 35 países, mostra que quase vinte por cento delas tiveram sensações desagradáveis depois do choro, que as fizeram se sentir pior.

É pouco provável que orgulho ou vaidade leve alguém a choro verdadeiro. Único animal capaz de chorar, o ser humano começa a conviver com as lágrimas a partir dos seis meses de idade, ri em média 90 vezes por dia até os três anos e, na adolescência, tem esse número reduzido à média de vinte manifestações de alegria diárias. Curioso declínio do riso, que com o passar do tempo pode, em muitas ocasiões, ser lido como um choro disfarçado.

Soube dia desses de uma carpideira que trocou o aluguel de suas lágrimas pelo samba, animando eventos no litoral paulista. Na Pensilvânia, Estados Unidos, uma jovem era impedida de chorar por sofrer de urticária aquagênica – rara alergia à água, que causa erupções dolorosas na pele podendo, inclusive, levar à morte.

Dor de viver e conviver – eis o que faz de nós seres atrelados às lágrimas e, por extensão, à misericórdia.

Como dispensadores e, sobretudo, merecedores dela.

(Repost)

domingo, 5 de novembro de 2017

Como disse?

(Imagem: Google)


Nascido por volta do ano de 560 em Sevilha, cidade onde foi bispo por mais de três décadas, Santo Isidoro escreveu Etimologias – obra sobre a linguagem e que retrata o mundo de sua época.

Para Jean Lauand, professor titular na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, na Idade Média o autor costumava analisar a etimologia das principais palavras envolvidas na discussão de uma questão qualquer. Isto, por estar convencido de que a denominação da palavra “podia conter em si informações sobre a própria realidade referida”.

Ainda segundo Lauand, experiências densas que vivemos não possuem brilho duradouro na consciência reflexiva – razão pela qual o próprio Santo Isidoro valia-se de velha constatação dos gregos para lembrar que o homem é um ser que esquece.

Parte dessas experiências, no entanto, vai parar na linguagem. Daí a afirmação do titular da FEUSP de que, não raro, a análise etimológica ajuda a tarefa humana de filosofar. “Ao tratar filosoficamente a gratidão”, ele diz citando apenas um caso, “é importante considerar que quando dizemos ‘obrigado!’ estamos reconhecendo que a gratidão impõe um vínculo, uma obrigação (ob-ligação) de retribuição”.

Não há mais tanta esperança de que protestos e lamentos em defesa da maltratada língua portuguesa – e, de resto, da cultura em geral – possam resultar em providências saneadoras. Parece mais fácil maquiar deficiências, por exemplo, com o argumento de que a língua é dinâmica.

O filósofo e cientista político Leonidas Donskis escreveu que sua experiência com o que chamou ‘inflação de conceitos’ atingiu o auge quando deparou artigos na imprensa americana, descrevendo o ‘holocausto’ de perus às vésperas do feriado de Ação de Graças. Para ele, aquele não era um simples exemplo de uso irresponsável ou impensado de uma palavra, mas desrespeito por conceitos e pela linguagem, que apenas temporariamente encobre ‘o desrespeito pelos outros’.

É o que sugere o caso de quem transfere para seu totó de estimação a condição de filho, neto e até sobrinho. Sempre ficará a suspeita de que o mau uso da palavra para ‘humanizar’ o (ir)racional (= razãofaculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar ideias universais; raciocínio, juízo) nada mais é senão uma aparente e irreversível degradação de valores – fruto do ‘self como umbigo do mundo’ indo desaguar no avassalador desrespeito pelos nossos iguais. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Despertar necessário

(Imagem: Pinterest

Inicio o aplicativo de músicas pela internet e sou logo advertido de que, para não ter a audição interrompida por inserções publicitárias, terei que pagar por uma assinatura. O mesmo acontece com o noticiário eletrônico de jornais e revistas que, mesmo disponibilizando conteúdo na rede mundial de computadores, barram meu acesso à informação se eu não for um assinante.

Vou à tevê em busca de informação e lazer com um nível aceitável de qualidade, mas para isso também terei que pagar. Caso contrário, ficarei confinado à mediocridade do conteúdo disponível nos canais abertos.

Nada contra pagar pela qualidade. A questão é quando parece não haver limites para a deterioração do que é gratuito. E isto em país onde Educação é bandeira que não se desfralda. Por aqui, promessas com esse objetivo não costumam ir muito além de slogans e discursos.

A época é a de que tudo se vende. Da vaguinha para estacionamento na via pública à confiança do eleitor. Do voto obrigatório à receita completa de qualquer iguaria mostrada na tevê. De graça, nem injeção na testa. Só conselho – e olhe lá. Sempre se correrá o risco de dar de frente com um número de conta bancária, antes da possibilidade de se sentir aliviado.

Possivelmente já trouxemos conosco reserva maior de confiança e esperança no futuro – nós, os peregrinos dessa gigantesca feira livre chamada Brasil, onde negócio e negociata alimentam bancas e bandos visíveis e invisíveis.

Enquanto a prioridade do discurso for a realidade que se materializa no bolso do cidadão como inconfessada meta preferencial, a última palavra – the famous last word – continuará à disposição do sonolento eleitor.

Urge acordá-lo.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mundinho


(Imagem: Pixabay)

Vista do alto quando na sombra da noite, a Terra é pontilhada de luzes. São como pegadas humanas na escuridão, lanternas voltadas ao infinito à procura de respostas que acalmem nossa inquietação com marcas profundas da pegada antrópica, que o dia revela.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas dedicou-se a discussões sobre a população mundial, com ênfase na influência do futuro demográfico e suas consequências. Foram necessários 200 mil anos para que chegássemos a 1 bilhão de habitantes no planeta, mas levamos apenas 14 anos para saltarmos de 3 para 4 bilhões; 13 anos para 5 bilhões; 12 anos para 6 bilhões, e o mesmo tempo para crescermos em mais 1 bilhão.

A ONU considera que um crescimento populacional em taxa média faça com que desembarquemos em 2100 com 11 bilhões de habitantes. Na melhor hipótese, chegaremos lá com menos de 7 bilhões – número próximo do atual, que já impulsiona nossa pegada para 64% além da biocapacidade do planeta.

Cidadão do futuro e adaptando gente e Terra à dimensão de seus cinco anos, Gabriel ditou ao pai suas impressões ante um desenho infantil do planeta. Para ele, que iniciou seu depoimento com um compenetrado “era uma vez”, o mundinho era muito feliz, colorido e respeitado pelos homenzinhos. Nele tinha árvores, grama, flores, gaivotas e terra. Era também cheio de pessoas que gostavam de brincar e que não precisavam ter medo do mundinho, porque ele era só um planeta e protegia a todos.

De Gabriel a um registro histórico: há 150 anos, quando remexia os escombros de Canudos, o médico das tropas invasoras, João Condé, deu com um volume encadernado de 628 páginas. Na última página de Prédicas, seu autor, Antônio Conselheiro, previa sua morte próxima: "Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós".

Espremidos entre um adeus em passado que se insinua futuro, e um futuro com sombras de desesperança, seguimos tentando preservar nossa teima, nossa arrogância e nosso individualismo suicida. Sem consciência das urgências ambientais, aliadas a políticas de resultados, talvez nos reste a misericórdia de Deus. De Quem, aliás, nossos representantes e líderes parecem não desejar tanta aproximação assim, haja vista a lembrança urgente da laicidade do Estado, verberada em discursos exaltados, ante a recente polêmica sobre o ensino religioso nas escolas públicas.

Pode ser que Gabriel ainda persista por algum tempo imaginando um mundo de pessoas que gostam de brincar em um planeta que protege a todos. Parece certo, no entanto, que os sonhos do futuro não despertam em nós mais que um sorriso breve com traços de compaixão. Ébrios de própria estupidez, por enquanto o que temos feito melhor é dar de ombros, remetendo aos que vem chegando a conta a ser paga por nossos crimes ambientais.

domingo, 1 de outubro de 2017

Pássaros


(Imagem: Pinterest)


Em céu de entardecer, pássaros seguem rumo ao horizonte voando em formação semelhante a um arco. Apelo irresistível atrai esses migrantes, que partem em busca da sobrevivência tão logo se manifestam os sinais de escassez de alimento e de mudanças no clima. Ainda que correndo riscos extraordinários e despendendo alto custo energético, bandos e manadas se põem a caminho quando é chegado o momento. Não incomodam, não desacatam, não resistem, não agridem. Harmoniosos e obedientes ao instinto, que é a sabedoria dos bichos, batem em retirada sem muitas vezes nos darmos conta de sua ausência.

Mistérios. Desde a antiguidade, o aparecimento e o desaparecimento dos pássaros deixa naturalistas inquietos. Informações na anilha – o anel metálico colocado em indivíduos de várias espécies, com dados que auxiliam no seu rastreamento – já revelaram, por exemplo, que uma batuíra abatida por um caçador em São Paulo saíra de Washington, D.C., distante cerca de 10 mil quilômetros. Falcões peregrinos voaram da Groenlândia à capital paulista, enquanto um filhote de albatroz, anilhado em ilha próxima à Nova Zelândia um mês antes, viria morrer a 6 km ao sul de Tramandaí, no Rio Grande do Sul.

Migrantes rumo à eternidade, nossa peregrinação, ao contrário, não é majestosa como a dos animais terrestres, nem harmoniosa como a dos pássaros. Distraímo-nos pela caminhada, perdemo-nos em conflitos. Em surpreendente compulsão, aceleramos o carro para ver o pedestre que atravessa a rua se assustar e correr. Desprezamos nossos velhos, seguimos aniquilando nosso habitat e abatendo parceiros de migração. Em nome do nosso egoísmo e de nossas ambições, deixamo-nos guiar por uma espécie de instinto primário, bárbaro e individualista.

Se de um lado, para nós, ausência que dói é a que nos deixa incompletos, de outro insistimos na tentativa de preencher o vazio de alguma dor com a largueza de nossas ambições. Tantas vezes inflados pela expansão avassaladora do ego, somos levados a crer que a vida – nossa migração – só vale a pena se chegarmos sempre na frente, vencedores de uma corrida onde ganham os que furam a fila no cinema, os que praticam a rapinagem com o dinheiro público, os que manipulam covardemente a boa fé de seus iguais. Por isso não há tempo a perder com gente-obstáculo. Solidariedade, só negociada.

Pobres de nós, solitários migrantes para quem o nomadismo – já se disse – é o outro nome da liberdade. Ruidosos e desengonçados, vamos em frente agitando asas feitas de ilusão. Queremos descobrir, como na letra da canção, onde os ventos morrem e para onde vão as estórias. Mais que isto, nossa meta está mais além: fincar no infinito a nossa bandeira transformando-nos, se possível, em donos da História.

Pássaros migrantes, apesar de tudo, deixam-nos a impressão de que a natureza os privilegiou com sabedoria e simplicidade. Um terço de todas as espécies catalogadas bate em retirada a cada ano e, destes, metade morre ou permanece no exílio, enquanto a outra metade retorna ao local de origem. Missão cumprida, a vida se renova.

Quanto a sonhos, também eles os tem, encantadoramente singelos. Segundo publicou a revista Science, pesquisadores de Chicago concluíram, após estudos realizados com determinada espécie, que os pássaros sonham com seus cantos.

(Repost - Original em 11/09/2008)

domingo, 24 de setembro de 2017

Exterminadores

(Imagem: Pinterest)

Já publiquei aqui sobre a besta que mal acalentamos em nós. Volto ao tema, depois de assistir alguns minutos de um documentário a respeito do considerado primeiro genocídio do século XX. O fato aconteceu entre 1904 e 1907 e dizimou mais da metade da população herero e namaqua onde hoje é a Namíbia, na África Oriental. Ironicamente, o berço da Humanidade.

As cenas são úteis para relembrar que somos ferozes. E que, se por um lado, manter viva essa consciência pode nos ajudar a dominar o ímpeto devastador que trazemos conosco, por outro o esquecimento das barbaridades que praticamos abranda e quase afaga aquela consciência inquieta, tornando-a letárgica e auto-absolvedora.

Perpetrado por colonizadores alemães e ingleses, o mais prolongado genocídio, segundo o etnólogo norte-americano Ward Churchill, seguiu provavelmente modelo da matança indígena nos Estados Unidos da América, que atravessou todo o século anterior e só chegaria ao fim com o reconhecimento da cidadania dos índios, em 1925. Após três séculos de guerras, a população indígena daquele país, antes estimada em 25 milhões de pessoas, acabaria reduzida a cerca de 2 milhões.

É claro, a História registraria outras barbaridades. Como o genocídio de milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Denominações e formas diferentes, no entanto, atualmente encobrem extermínios em consequência, por exemplo, da miséria, da ideologia e até da má educação no trânsito. O fio comum que os une parece não ser outro senão a ambição humana que, livre, leve e solta, insiste em cutucar a besta feroz, arrogante, individualista e infiel. Pelo menos enquanto o cabo do chicote não muda de mãos. Indefesa, num leito ou em maca no corredor de um hospital, a ferocidade não raro se desmancha em lágrimas e súplicas. Algumas vezes o sofrimento regenera a besta, que em outras oportunidades, no entanto, sai fortalecida.

Alguém poderá dizer que não se exterminam vidas hoje como no passado. Talvez. Mas a maior diferença pode estar no fato de que, negando oportunidades, cultuando o individualismo e devastando o meio ambiente, nos tornamos exterminadores sofisticados e criativos.

Exterminamos sonhos.

(Repost - Editado)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Escassa vergonha

(Imagem: Pinterest)

Quais vozes de grande alcance falam hoje, no Brasil, o que a sociedade quer escutar?

A resposta é nenhuma. Pobres no conteúdo e tremulantes na gramática, os discursos, além de enfadonhos, provavelmente manterão no caminho entre o desalento e o desespero quem lhes dê atenção.

"O Relator já fez a concessão da aposentadoria aos 55 anos para ser aprovada a reforma – falava-se em 60 anos – e não passou. O Governo não está conduzindo como deveria. O Congresso não está se comportando como deveria".

Estas afirmações – atualíssimas – foram feitas pelo então senador Pedro Simon, em aparte do colega Jefferson Peres, em sessão do Senado realizada em Maio de 1996. Na ocasião, era discutida a reforma da Previdência que, anunciava-se, estava "quebrada". – "Nessa questão, é possível se oferecerem alternativas racionais para a Previdência. Temos que dar condições para que essa Previdência possa funcionar", enfatizava o senador gaúcho.

Refém de anunciado furacão de verdades, logo transformado em tempestade tropical de dúvidas, a sociedade continua vendo de pé torres de marfim, enquanto se debate para não submergir em meio à pulverização de culpas.

Bem próximas da oratória oficial, as entrevistas coletivas, habitualmente reduzidas a pouco mais que um pronunciamento do entrevistado ou a leitura de uma nota oficial, mais expõem a manipulação daqueles e a deficiência de entrevistadores, do que a informação pela qual se espera. Raros entrevistados se permitem ir ao limite dos questionamentos razoáveis.

A condenação do país a ver e rever a projeção de um velho filme lembra o sentimento de Roberto Campos em 1999, quando se despedia da atividade legislativa. Naquela oportunidade, o então senador confessou-se melancólico – não por afastar-se de Brasília, que definiu “um bazar de ilusões e uma usina de déficits”. Seu desalento seria atribuído ao “fracasso” de sua geração “em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado”.

O Brasil mudou, mas o bazar de ilusões e a usina de déficits permanecem gerando pesadas contas que todos pagamos. A insistência num discurso com viés eleitoreiro, tatibitate, que usa reformas que nunca serão feitas como bandeira de coisa alguma evidencia que não faltam apenas verdade e compromisso nos discursos políticos.

Falta vergonha.

sábado, 19 de agosto de 2017

O feitiço pelo telefone


(Imagem: Pinterest)

Suponhamos uma sociedade organizada, em país onde a voz do cidadão seja ouvida e respeitada. Ali, para se desfazer do estoque de lançamentos encalhados, uma empresa recruta especialista em marketing e este, ansioso por mostrar serviço, arrebanha na fila dos desempregados um batalhão de vendedores.

Devidamente instruídos, esses valentes soldados saem em campo para caçar, de porta em porta, compradores para sua mercadoria. Batem à porta de uma residência pela manhã, mas não tendo aceita a oferta que apresentam, repetem-na à tarde em nova visita.

Achando que talvez não tivessem sido bastante claros, moradores reiteram a negativa. Indiferente a ela, a empresa novamente baterá às mesmas portas em outros tantos momentos do dia, insistindo em ofertas firmemente recusadas. E assim por meses a fio.

Avancemos ainda nesta suposição para alcançar uma autoridade do universo de legisladores, executores e fiscais dessa nobre atividade mercantil. Para se defender do oceano de reclamações dos cidadãos cotidianamente importunados – primeiro pelo toc-toc-toc, depois pelo esmurrar das portas de suas residências –, essa autoridade definirá a estratégia do suposto especialista em marketing como "um mal necessário". Para se livrar dela, caberá à população apenas ignorar a aporrinhação infernal de seus vendedores, até que a empresa se convença da inadequação da estratégia em prática.

E claro que, em realidade e curtíssimo prazo, tal situação custaria, quando nada, o emprego do vendedor, do tal 'especialista' em marketing e da autoridade, restando à empresa, como consequência, prejuízos financeiros acarretados por danos à sua imagem, além de indenizações por assédio aos cidadãos.

No Brasil, país onde a realidade supera em muito o imaginário, toda essa lógica, no entanto, talvez valesse apenas para abordagens onde vítima e algoz estivessem separados por uma porta ou por um botão de campainha. Quando a distância entre as partes é medida em quilômetros, livrando o chato de valentes e machadianas bengaladas de sua vítima (para supor o menos), as regras de mercado e de respeito ao cidadão desaparecem.

Essa é a realidade do telemarketing. A salvo dessa chatice, os figurões da República dão de ombros para esses e outros flagelos a que submetem seus eleitores. Até porque, legisladores – imagine-se! – usam o telemarketing para captar votos em campanhas eleitorais...

Pode demorar mais um pouquinho, mas esse feitiço vai se voltar contra os feiticeiros. A torcida é imensa. Não custa esperar.